Livro do mês:
Adélia
Prado logra executar, em Os componentes da banda, uma
partitura narrativa desfibrada, sem músculos. Fruto de uma arejada
conceção do que seja uma novela, ou um concerto verbal de feição
aglutinadora, a obra acolhe breves relatos, receitas
domésticas, reflexões
intempestivas, pensamentos
aleatórios, esboços
de poemas, lembranças do passado, registros diários e
devaneios de uma anódina
rotina doméstica. A narradora não faz segredos de seu estatuto de
dona de casa, em segundo
casamento, envolvida em
tarefas corriqueiras, pequenos compromissos, eventos banais,
efemérides citadinas e familiares. Na
verdade, uma dublê de
dona de casa e professora: “Em plena aula a cantineira abre a
porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e
biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de
escolher. Põe qualquer coisa, falo depressa, pros meninos se
esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito”
(PRADO, 1985, 22). Sem
esquecer as impressões fugidias sobre uma ou outra palavra – como
“soturno”, a preferida do pai, ou “pudera”, considerada a
mais bela palavra pela mãe. Prefere
ser conhecida por compositora, não como escritora. Rodeada
de frades solícitos, comadres espevitadas, amigas desconfiadas e
parentes pernósticos, a
narradora irascível
se deixa contaminar pela poeta, religiosa
e onipresente.
“Não
pinto o cabelo, os fios brancos têm excelente brilho, Deus me quer
tão bem, as pessoas pensam que pinto as mechas esmeradamente. Penso
em fazer balé, pra dar boa diligência aos gestos. Como se movem
lindo os bailarinos. Senti uma sensação esquisita, a mocinha me
elogiou: ‘que pés lindos!’ Papai tinha pés inacreditáveis, era
bom ver ele descalço, pés para amoroso trabalho de estátua. Nunca
soube. Fora melhor também eu não saber. Mãos não tenho bonitas,
só quem acha é Pedro que se ri apenas de minhas orelhas” (PRADO,
1985, 78-79).
Não
há um enredo decisivo, uma ossatura de fatos encadeados logicamente.
Mas os fatos narrados têm uma graça pitoresca, provocam um
interesse dobrado em quem deles se aproxima, seduzido por uma
descrição ingênua, uma situação simultaneamente grotesca e
engraçada, o coloquial
tosco. Sucedem-se, sem
encadeamento rigoroso e uma fixação sólida em algum contexto,
notações e comentários avulsos sobre eventos rarefeitos: um
casamento na roça, um aniversário de criança, uma novena ensaiada.
O que salva toda essa
barafunda de intriga esgarçada é uma postura descontraída diante
da linguagem, como se a cada linha a narradora se revelasse encantada
pelo poder mágico das palavras. “Não
sou carioca, por isso não uso verão, uso tempo de calor, quando a
gente fazíamos piquenique na cachoeira do rio Lambari. Eu era má,
eu já fui bem mazinha, quando comprava um queijo, era só pra mim.
As mulheres na feira têm ancas de surrar marido, que belo manto
adiposo, verdadeiras rainhas”
(PRADO, 1985, 154).
Por
vezes o relato beira o universo infantil por ser poético, ou seria o
contrário? A mistura de lucidez e sutileza, de
lirismo e objetividade, com
uma deliberada tentativa de embaralhar o universo referencial,
culmina num mergulho desordenado no fluxo de consciência que só
consegue pausa e respiração num apelo místico, cessado apenas
com um ponto final.
PRADO,
Adélia. Os componentes da banda. Rio
de Janeiro: Guanabara, 1985.

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