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terça-feira, 6 de junho de 2017

Josué Montello

Livro do mês: Cais da sagração


      Retorna este título à rubrica - livro do mês, após encerrada a leitura. Impossível resistir ao poder de sedução do autor, que se impõe com perfeito domínio dos recursos narrativos. O leitor percebe quando o autor se entrega prazeirosamente à prática da escrita: Josué Montello (1917-2006) é bom exemplo dessa virtude. Transmite o gosto em descrever o rosto, as pestanas, as sobrancelhas das personagens, o que transparece a cada página. "A fisionomia devastada, sentia as mãos frias, o coração em disparada, o mesmo aperto na garganta"( MONTELLO, s.d.,53). Em poucas palavras, o narrador descreve a rotina de um grupo humano, sob a moldura ensolarada da orla de São Luís do Maranhão. Alguns aspectos singulares dão colorido às descrições vazadas em linguagem sóbria e elegante.

       "Os igaratés de pesca, com as suas pequenas velas triangulares, iam começando a voltar, na tarde que lentamente esmorecia. Uma claridade de cristal partido dançava por cima das ondas, enquanto uma luz mais suave, ora vermelha, ora rósea, diluindo-se em tonalidades violáceas, se estendia sobre as águas inquietas, riscada a espaços pelo balanceio calmo das asas das gaivotas. Um traço roxo, tirando a cinza, fechava o horizonte, no ponto em que o mar se encontrava com o céu, e acima desse traço alastrava-se a fulguração esbraseada do sol, que parecia também ondular no dorso das vagas a sua cabeça decepada" (MONTELLO, s.d.,72-73).



      Cais da sagração traz um protagonista rico de experiência, o velejador Severino. E o estilo é elegante, transparente, as descrições poéticas e sugestivas. Ainda atual, comove pela densidade humana e amplo espectro de motivações. O final flagra o conflito vivido pelo velho barqueiro, experimentado nas lides do mar, ao perceber o desinteresse do neto pelo seu ofício. Mestre Severino, de índole fria, assassino da mulher Vanju, ao espreitar artimanhas adversas, decide morrer no mar, lançando-se no perigo da grande tempestade que sacode as altas ondas alvoroçadas. O pior lhe ronda a mente: morrer, "arrastando na morte o neto que não queria ser barqueiro" (MONTELLO, s.d., 297). Josué Montello transfigura nesse desenlace o drama de muitos pais (ou avós) que sofrem a indiferença dos descendentes. Entre ondas agitadas e trovões, o barco avança "aos trombolhões", na treva escura oceano adentro, retalhado por relâmpagos. Os eventos sucedem-se dramáticos, nas malhas de uma destinação trágica, ampliada por vínculos religiosos. Nessa luta com o mar, o neto descobre seu destino, amparando o avô arquejante. 

                                                           (Foto: www.terra.com.br)

     Ao lado de Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Osman Lins, Clarice Lispector, Josué Montello integra a seleção dos expoentes da moderna ficção brasileira. Autor de extensa obra ficcional, ensaísta de méritos, testado em vários títulos, publicou também biografias, peças teatrais, novelas e diários. Muitos livros de sua autoria figuram entre as mais expressivas criações romanescas do país, como A décima noite (1959), Os degraus do paraíso (1965), Cais da sagração (1971), Os tambores de São Luís (1975), A noite sobre Alcântara (1978), O largo do desterro (1981), O baile da despedida (1992).

MONTELLO, Josué. Cais da sagração. Rio de Janeiro: Record/Altaya, s.d.

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