José Martiniano de Alencar (1829-1877). Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Mário Cóchrane de Alencar (1872-1925). Três nomes ilustres, tendo em comum aparentemente o fato de serem escritores. Até recentemente, a tradição aceitava que Mário de Alencar era filho de José de Alencar. A partir de uma crônica de Humberto de Campos, passou-se a suspeitar que o verdadeiro pai de Mário de Alencar teria sido Machado de Assis, que todos acreditavam não ter tido filho. Para tanto, eram aventadas as palavras finais do narrador de um de seus livros, Memórias Póstumas de Brás Cubas, : "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
Transcrevo, a seguir, passagem da crônica citada de Humberto de Campos (1886-1934), extraída de Diário secreto, obra póstuma publicada em 1954, e trecho de crônica de Carlos Heitor Cony, ambas tratando do tema. A ser verdade, cai por terra todo um repertório crítico, desenvolvido em torno de um homem desencantado, cético, estéril.
(Machado de Assis. Imagem: saocarlosemrede.com.br)
"Havia,
realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela
afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no
entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só
dia?
Meses
depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu
médico e amigo, este me recebe exclamando:
– Se
você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.
– Qual
deles?
– O
M... M. de A.
Sem
a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do
nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.
– Nervoso,
só, não – atalhou o médico.
E
com ares misteriosos:
– Eu
lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.
Essa
informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de
epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a
epilepsia de M. de A.?
Mergulhei
no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não
será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que
fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?"
(Trecho de crônica de Humberto
de Campos, em que o autor
insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar.)
(Mário de Alencar. Imagem: geneall.net)
"Todos sabiam da amizade final de Machado de Assis por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais. Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia - doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quando o autor de Helena, viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele".
(CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. São Paulo, 04/08/1999)


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