Helder
Moura Pereira revela em Um raio de sol uma aparente oposição às referências sombrias
de outros títulos (De novo as sombras e as calmas, Nem por
sombras) sugerindo uma via mais aberta e positiva. Signatário de
um verso paradigmático – “A mágoa é um vício” – e conhecido pela
paciente “ordenação da mágoa”, para usar um comentário de Joaquim
Manuel Magalhães, o escritor apresenta neste livro uma produção poética
caudatária de novas e arejadas sensações e descobertas, fugindo
às cristalizações do discurso crítico: “Vou escrever o destino
do meu ser. / Mas é tudo contrário a um livro / que mesmo agora tiro
da estante e abro / com as pontas dos dedos magoadas” (p.11).
Entretanto, os poemas e o próprio título (pelo que sugerem de restrição e
sinal de menos – “um raio” – para já não falar de ironia) não se
conformam com uma relação opositiva apaziguadora. Estabelecem antes
um modelo dialético de forças que se atraem e se neutralizam, uma
rede de associações tensas que se entrecruzam com o intento de
minar, na sequência de prerrogativas tradicionais da modernidade, a
pretensa ordem burguesa. A tristeza
e a melancolia não desaparecem
de todo, convivem com notações eufóricas ou flagrantes de um
contexto social degradado num discurso flexível, impregnado da sensação
de mistura e impureza de registros: “Aquela versão da
realidade falava / de um homem com um só cobertor / de estanho,
deitado entre jornais / com escândalos sexuais, baratos, ao som / de
disco-house, neo-swuing, flipper music” (p.43). A linguagem torna-se
receptiva a instantâneos expressivos, como em “unhas hardcore
tamborilando” (p.65).
A associação entre poesia e música
(raio/clave de sol) constitui-se num dos eixos centrais,
enunciada no primeiro poema – “A música é sem dúvida imortal”
(p.11) – e retomada várias vezes como exercício lúdico ou suporte de
elaboração conceitual: “Dar-me-ia por muito feliz / assim no
soalho deitado? / A toda a frase sensata / eu torço sempre o nariz”
(p.22). Para além das intenções galhofeiras, os significantes produzem ecos,
ilustrando a epígrafe de I. A. Richards e a ideia de que o
trabalho poético é antes de tudo um trabalho de linguagem: “No meu
bairro ladram cães, / ladram cães, ladram cadelas. / E as minhas
emoções, meu deus, / que é feito delas?” (p.47). As constantes ligações
do poema à música configuram uma percepção do real por meio
de vetores diversificados, despertando a memória involuntária do leitor
e alianças fundadoras da modernidade poética (“Art
poétique” de Verlaine, o “celestial girassol” de Eugênio de Castro, “Chuva
oblíqua” de Pessoa – “E a música cessa como um muro que se
desaba”): “Verdadeiras lágrimas salgadas, ó / baía de cascais, quantos dos
teus iates / matavam a fome em moçambiques e que tais?” (p.46).
A evocação da poesia de Pessoa serve ainda para outras
ressonâncias: “Eu ponho um laço, / o meu primeiro laço de menino, / e
faço de conta que o mundo é uma bola / que chutaram para dentro do
meu quintal” (p.14).
A obra de Helder Moura Pereira propõe-se
uma percepção da realidade contaminada por traços
de ironia, quase sempre articulada com elementos de denúncia
desencantada. Desencantada e perplexa, na medida em que ultrapassa a
atmosfera fronteiriça do humor e se equilibra perigosamente à beira
do abismo. Permeada de incertezas, esta é uma poesia escrita com o
artifício do enigma – o enigma de construir uma duplicidade que ao
mesmo tempo constitui e condena à perda o sujeito da linguagem:
“Meu coração igual ao meu / outro coração, vive comigo, / vive e
faz do meu viver / o teu viver. Fui várias vezes / o mesmo, aceitei a
primavera, / descontei contas por ti, / ó meu outro coração” (p.20). Inúmeras
formas de questionar a realidade radicam na dificuldade de o
sujeito se compreender a si próprio, seja através de alusões a contextos
supostamente biográficos – “Procuras na minha secção de música / do
mundo onde estará o destino / daquele povo agora muito em moda
/ nos filmes” (p.54), ou através da memória interessada em
compreender a interlocução com o outro: “Ouve, sócio, então já não te
lembras / de mim dos tempos do liceu? / Roubaste-me o que era meu, / não
sei se também te lembras” (p.76).
Um raio de sol reverbera uma realidade alterada pela elaboração estética (a longa tradição na
poética ocidental do motivo do Sol como agente criador,
revitalizada pelo Cesário Verde de “Num bairro moderno”: “Subitamente, - que
visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais, / À luz do
sol, o intenso colorista”) e captada por uma subjetividade esgarçada,
dispersa e cética – “qual escrivão do vento / condenado à
intempérie dos sentidos. (...) Se não traçarmos nenhum risco nada / nos pode
perder, temos um lago, temos / um deserto, que mais podemos
querer?” (p.41).
PEREIRA, Edgard. Helder Moura Pereira:
tu vês a minha sombra. Lisboa:
Aldeiabook, 2014, p.119-121.
PEREIRA, Edgard. Um raio de sol. Resenha em Colóquio-letras,
159-160, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2002, p.450-451.
PEREIRA, Helder Moura. Um
raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. A esta edição prendem-se os números entre parênteses, nas citações.
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