Lino
de Albergaria tornou-se conhecido na década de 80 como autor de livros
infanto-juvenis, com mais de meia centena de títulos publicados na área. Mais
recentemente tem-se dedicado à ficção para adultos, tendo relançado, pela Scriptum,
novas edições de Em nome do filho e A estação das chuvas, além de novos
títulos, Os 31 dias e Um bailarino holandês. Deste último me
ocupo por ora.
Trata-se
de um romance urbano, direcionado de forma emblemática a aspectos inerentes às
artes. Literatura, dança, teatro, fotografia, pintura, música, cinema e
arquitetura fornecem elementos condicionantes que se misturam com harmonia na
narrativa. Concentração de foco. Cenário minimalista, reduzido ao essencial. Um
vendedor de livros aproxima-se de um cliente, um fotógrafo em passagem
acidental pela livraria, interessado em comprar ingresso para um espetáculo de
dança. Antes, revela-se um ávido e atento leitor. O resultado é um confronto
sutil, na esteira de um jogo de sedução, em que olhares, gestos vão se
adensando e intensificando. As referências aventadas privilegiam um refinado
universo artístico, povoado de conotações que recobrem um multifacetado mosaico
de citações e contextos culturais. À medida que os jogos de aproximação se
sucedem, alargam-se os reflexos de um instigante caleidoscópio de ressonâncias
afetivas e eróticas. Os lances da mútua descoberta justapõem-se como etapas
constitutivas e especulares do processo da escrita e da leitura. O cenário
exterior – espaços situados no prédio do Palácio das Artes, em Belo Horizonte –
oferece substrato ao desafiante processo de conhecimento e aproximação de dois
homens. No anonimato do caminho de cada um não há lugar para assomos de posse e
usurpação.
A estrutura
narrativa opera em blocos pendulares, em que dois narradores vão construindo um
arcabouço em ziguezague, cujas sendas terminam por se entrelaçar. Límpida e despojada, a linguagem sabe tirar
proveito de imagens e tomadas sugestivas.
ABERGARIA, Lino de. Um bailarino holandês. Belo Horizonte: Scriptum,
2015.

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