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terça-feira, 24 de maio de 2016

Referência cultural ameaçada

      O Governo de Minas Gerais enviou um Projeto de lei à Assembleia Legislativa com o objetivo de desativar a Imprensa Oficial do Estado. A medida tem gerado indignação entre os intelectuais, escritores e artistas plásticos. O Governo que patrocina o projeto é o mesmo cujo titular é alvo de investigação na operação Acrônimo. Será que o intento seria contratar a gráfica do amigo Bené, também investigado? A Imprensa Oficial firmou-se como referência cultural do Estado há mais de um século, tendo em vista seu papel pioneiro de divulgador de notícias, atos administrativos e livros há quase cento e vinte anos. Os historiadores atestam a data de 1898 como sendo o ano em que saiu a primeira edição de um órgão informativo do Estado.

                                              (Imagem: Divulgação IO MG)

      O prédio neoclássico da Avenida Augusto de Lima acolheu no passado nomes expressivos da política e das letras do país. Juscelino teria clinicado em seu recinto, num posto médico lá instalado, José Maria Alkmim, José Aparecido de Oliveira, Mário Casasanta, Darcy Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Francisco Iglésias, Manoel Hygino dos Santos, Vivaldi Moreira, José Bento Teixeira Salles, Paulo Campos Guimarães, Guimarães Alves e outros nomes figuram como ilustres diretores da Casa ou publicaram obras em suas oficinas gráficas. 
      A importância da Imprensa Oficial para a literatura brasileira é incalculável. Murilo Rubião fundou em fins dos anos de 1960 o prestigioso Suplemento literário, órgão cultural hoje cinquentão, num país em que as folhas literárias não passam de duas ou três edições. Muitos escritores ali iniciaram publicando poesia ou ficção ou prestigiaram as páginas do Suplemente, como Cyro dos Anjos, Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Lúcia Machado de Almeida, Affonso Ávila, Dantas Mota, Bueno de Rivera, Benedito Nunes, Murilo Mendes, Pascoal Motta, Laís Corrêa Araújo, Fábio Lucas, Adélia Prado, Duílio Gomes, Mário Garcia de Paiva, Letícia Malard,  Fritz Teixeira Salles, Rui Mourão, Manoel Lobato, Ildeu Brandão, Silviano Santiago, Sérgio Santana, Carlos Ávila, Osvaldo André, Márcio Almeida, Hugo Almeida, Anelito de Oliveira, Adalgisa Botelho de Mendonça, Luiz Vilela, Lucienne Samôr,  Jaime Prado Gouvêa e  muitos outros nomes, que não se restringem aos limites do Estado. As matérias literárias apresentavam-se ilustradas por grandes nomes da arte mineira, como Yara Tupinambá, Márcio Sampaio, Chanina, Álvaro Apocalypse, Nelo Nuno, Bax, Liliane Dardot, Ferruccio, Eimir, Wolney, Eliana Rangel, Gilberto Abreu, Sebastião Nunes e muitos outros. Não é pouco.
      Desativar um órgão com extensa folha corrida de altíssima qualidade na área cultural é um verdadeiro atentado à história mineira. Como tem sido demonstrado, nos dias recentes, a Imprensa Oficial nem é deficitária. O sensato seria injetar recursos para modernizar o seu parque gráfico, em reconhecimento pelo muito que contribuiu e continuará gerando de relevante em termos de cultura para a sociedade.

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