Livro do mês:
O livro escolhido para a rubrica do mês atravessou o Atlântico duas vezes: pela autoria, focando um grande nome da literatura francesa; por força da tradução e edição portuguesas. Para tempos conturbados nos trópicos, recheados de líderes hipócritas e populistas, um mergulho num período escuro da história universal: Viagem ao fim da noite, romance publicado em 1932, do polêmico Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Um retrato realista do tempo da guerra, empreendido por alguém que viveu todos aqueles horrores e desespero. Querer encontrar um escritor otimista, cheio de esperança e bons sentimentos, é gostar de ver o mundo de olhos vendados. Execrado por expressiva parcela da inteligência ocidental, Celine retruca com algum cinismo erudito. Tomado pelo medo e atrocidades, retrata os anos de pavor e falta de perspectiva da primeira guerra, estendendo-se até os anos 30. Não hesita em celebrar a perigosa aliança entre a poesia e a violência: “Os tempos já não estão para atuações mesquinhas! Abaixo as literaturas empedernidas! Uma nova alma floresce no meio do grande e nobre tumulto das batalhas!” (p. 110). Impiedoso em relação à cultura ocidental alicerçada na crença em valores transcendentes, o autor ataca os intelectuais: “Nunca mais tornei a vê-lo, ao Princhard. Tinha o vício dos intelectuais, era fútil. Sabia coisas de mais, aquele rapaz, e as coisas confundiam-no. Tinha necessidade de uma porção de expedientes para se excitar, para se decidir” (p.82).
O livro escolhido para a rubrica do mês atravessou o Atlântico duas vezes: pela autoria, focando um grande nome da literatura francesa; por força da tradução e edição portuguesas. Para tempos conturbados nos trópicos, recheados de líderes hipócritas e populistas, um mergulho num período escuro da história universal: Viagem ao fim da noite, romance publicado em 1932, do polêmico Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Um retrato realista do tempo da guerra, empreendido por alguém que viveu todos aqueles horrores e desespero. Querer encontrar um escritor otimista, cheio de esperança e bons sentimentos, é gostar de ver o mundo de olhos vendados. Execrado por expressiva parcela da inteligência ocidental, Celine retruca com algum cinismo erudito. Tomado pelo medo e atrocidades, retrata os anos de pavor e falta de perspectiva da primeira guerra, estendendo-se até os anos 30. Não hesita em celebrar a perigosa aliança entre a poesia e a violência: “Os tempos já não estão para atuações mesquinhas! Abaixo as literaturas empedernidas! Uma nova alma floresce no meio do grande e nobre tumulto das batalhas!” (p. 110). Impiedoso em relação à cultura ocidental alicerçada na crença em valores transcendentes, o autor ataca os intelectuais: “Nunca mais tornei a vê-lo, ao Princhard. Tinha o vício dos intelectuais, era fútil. Sabia coisas de mais, aquele rapaz, e as coisas confundiam-no. Tinha necessidade de uma porção de expedientes para se excitar, para se decidir” (p.82).
(Foto: write-aholic.com)
O escritor, em panfletos escritos em fins dos
anos 30, não esconde seu ódio à sociedade capitalista (por extensão, aos
judeus), explicitado nos anos de pânico e barbárie, motivo de sobra para
merecer, mais tarde, acusação de Sartre (não de todo convincente) de que teria
colaborado com nazistas. A obsessão pela morte, a imersão numa noite ameaçadora
e interminável, não lhe dão trégua: “Nesta profissão de sermos mortos, não
devemos mostrar-nos difíceis; temos de proceder como se a vida vá continuar, o
mais duro é isto, esta mentira” (p. 46). Em meio aos relatos bélicos,
acrescidos de inúmeras peripécias e situações exóticas, inclui uma extensa
narrativa, de extração autobiográfica, que retrata uma temporada exótica entre
os negros africanos, nos confins do Congo. Cenas de apelo sensual misturam-se
ao perigo de epidemias, leitos a tresandar urina, diarreias tropicais, sob o
calor tórrido, o perigo de ataque de crocodilos, corrupção desenfreada em meio à
mais degradante miséria.
Entre
descrições de episódios violentos e sórdidos, tiroteio, saques, deserções, extermínios
a sangue frio, de mistura a flagrantes de bordéis ignóbeis, o narrador dá vazão
a um sem número de confidências e queixas: “Tudo aquilo em que tocávamos estava
falsificado: o açúcar, os aviões, as sandálias, os doces, as fotografias; tudo
quanto líamos, engolíamos, chupávamos, admirávamos, proclamávamos,
refutávamos, defendíamos, não passava de fantasmas odiosos, contrafacções e
mascaradas. Os próprios traidores eram falsos” (p.66). Transmite ceticismo e
uma visão amarga, nada piedosa do sofrimento humano, abalado frontalmente pela
constatação da instabilidade e colapso das formas civilizadas de vida dadas
como válidas, nem se intimida em mostrar sua impotência e fragilidade diante da
civilização compactuada com a loucura da guerra. Diante de certezas que se esfumam,
revela-se destituído de espiritualidade, num mundo em que os valores materiais
se tornaram hegemônicos. Os recursos narrativos encarecem a sátira feroz, o
realismo e o insólito de cenas, o registro linguístico calcado na oralidade, o
uso equilibrado de adjetivos e a ênfase na descrição.
CÉLINE, Louis-Ferdinand. Viagem
ao fim da noite. 3ª. ed., trad, apres. e notas de Aníbal Fernandes. Lisboa:
Frenesi, 1997.

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