Livro do mês:
A nomeação do embaixador Luís Filipe Castro Mendes como Ministro da Cultura de Portugal justifica a escolha do livro do mês. Após a estreia com Recados, publicado na Imprensa Oficial em 1983, Luís Filipe Castro Mendes deu a lume outros títulos, como Areias escuras (ficção), Ilha dos mortos (1991), tendo-se afirmado plenamente como poeta com o livro Viagem de inverno (1993). A seguir, foram publicados O Jogo de fazer versos (1994), Modos de música (1996), Poesia reunida (1985-1995) e Os dias inventados (2001). A resenha que se publica integra o meu último livro, Arquivo e rota das sombras (2014).
(Imagem: www.publico.pt)
Luís Filipe de
Castro Mendes: adormecido olhar
dentro do mundo
Dentre as inúmeras
vertentes assumidas pela expressão poética no limiar da modernidade, destaca-se
a postura voltada para as pesquisas de linguagem, ritmo e musicalidade
incentivadas por Verlaine e abraçadas pelos poetas simbolistas nas mais
variadas latitudes. Em Portugal, Camilo Pessanha, Roberto de Mesquita e António
Nobre são nomes tutelares de uma forma singular de aproximar palavras que
encontra no Pessoa ortônimo uma referência importante, enquanto síntese de
torneios e formas melódicas. Luís Filipe de Castro Mendes aproxima-se dessa
maneira oblíqua, alusiva de exprimir a emoção. Os inúmeros envios a outros
poetas (entre os quais, Camões, Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Pessoa,
Rimbaud, Nuno Júdice, António Franco Alexandre, Ezra Pound, Joaquim Manuel
Magalhães) revelam o tributo a nomes tutelares da arte de escrever poesia, ou
d’O jogo de fazer versos, independente de sua maior ou menor inserção nos mais variados
cânones. Aquilo que Fernando Pessoa fala a respeito de Pessanha pode se aplicar
também a ele: para ser poeta não é necessário trazer o coração nas mãos, mas
trazer nelas a sombra dele. O poema – essa partilha
silenciosa – surge da consciência da linguagem como
instância de encobrimento da subjetividade.
Surgida após a consolidação de um novo
estatuto de poesia no contexto português pós-colonial – o que equivale dizer:
após a contenção da poesia 61, após a Poesia Experimental e após Cartucho -, a poesia de Luís Filipe de Castro Mendes, especialmente no livro
referido, articula-se, de forma amadurecida, aos jogos de citação e
interlocução típicos dos anos 90. Entretanto – e esta se torna uma das suas
mais interessantes marcas – sua dicção poética revela-se tendente a um rigor
estrutural de efeitos melódicos e métricos, raro nos dias que passam:
Arregacei as mangas ao
poema.
a tudo fiz soneto: aqui,
além...
e nada em mim conheço que
não trema
dum frio que não entende
mais ninguém.
anda perdida em mim a
noite pura,
com restos de verdade e
literatura...
A ideia de poesia como
jogo (e nesse aspecto o epigrama apresenta-se como lugar de exercício) alia-se
quase sempre a um intento conceitual, inerente ao mais rasteiro devaneio
lírico, que jamais abdica do apuro e cuidado da síntese: “Num só puro fulgor
assim devolve / sua luz toda a areia do deserto”. Mais do que prática de
expedientes retóricos, a poesia é uma aposta de aprendizagem.
Entender que a poesia
subverte
tudo o que a torna presa
do instante;
calar a própria dor,
quando promete
mais do que sabe o coração
amante.
(“Contrafações I”)
Ao referir o aspecto
lúdico da atividade poética, o Autor nomeia o traço de aventura e risco que a
acompanha. A elaboração linguística resulta sempre encoberta por uma camada
fluida de sonoridade que a rima liberta, ao invés de aprisionar: “Nós, que
perdemos mais do que a medida, / fizemos do delírio álibi / de enredar a poesia
com a vida / rasteira e pobre que se vive aqui”. Posicionado na atmosfera
elegíaca da poesia dos anos 80, Luís Filipe tem consciência da extensa rede que
liga a melancolia a outras manifestações poéticas portuguesas (seja sob a roupagem
da saudade ou da mágoa), desde os trovadores medievais até a poesia
contemporânea. Interessa ao poeta não apenas o registro da experiência
subjetiva, mas o discurso dialógico a que as palavras
de ordem e as canções da
Utopia que erravam pelo ar na Lisboa inflamada dos
idos de 1975 comparecem (Cf. o poema “Elegia”).
O seu legado constitui o
retorno às formas tradicionais e a partilha do cotidiano através das palavras,
entre outras contribuições que, desde Ruy Belo e Herberto Hélder,
possibilitaram à poesia portuguesa dialogar com a poesia europeia
contemporânea, sem prejuízo da especificidade do contributo ibero, alicerçado
em séculos de experimentação lúdica da palavra:
Qualquer que seja a música
sentida,
nenhum poema dura se o não
vê,
essa razão que colhe
dentre a vida
outra apagada teia que nos
lê.
(“Alguma poesia”)
Referência bibliográfica:
MENDES, Luís Filipe de Castro. O jogo de fazer versos. Lisboa: Quetzal, 1994.
MENDES, Luís Filipe de Castro. O jogo de fazer versos. Lisboa: Quetzal, 1994.
(Resenha publicada
anteriormente em: Revista do Centro de
estudos portugueses, 22, Belo Horizonte:
Faculdade de Letras da UFMG,1998, p.275-276)

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