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domingo, 10 de abril de 2016

Luís Filipe Castro Mendes

Livro do mês: 

      A nomeação do embaixador Luís Filipe Castro Mendes como Ministro da Cultura de Portugal justifica a escolha do livro do mês. Após a estreia com Recados, publicado na Imprensa Oficial em 1983, Luís Filipe Castro Mendes deu a lume outros títulos, como Areias escuras (ficção), Ilha dos mortos (1991), tendo-se afirmado plenamente como poeta com o livro Viagem de inverno (1993). A seguir, foram publicados O Jogo de fazer versos (1994), Modos de música (1996), Poesia reunida (1985-1995) e Os dias inventados (2001). A resenha que se publica integra o meu último  livro, Arquivo e rota das sombras (2014).




                                          (Imagem: www.publico.pt)


Luís Filipe de Castro Mendes: adormecido olhar dentro do mundo

Dentre as inúmeras vertentes assumidas pela expressão poética no limiar da modernidade, destaca-se a postura voltada para as pesquisas de linguagem, ritmo e musicalidade incentivadas por Verlaine e abraçadas pelos poetas simbolistas nas mais variadas latitudes. Em Portugal, Camilo Pessanha, Roberto de Mesquita e António Nobre são nomes tutelares de uma forma singular de aproximar palavras que encontra no Pessoa ortônimo uma referência importante, enquanto síntese de torneios e formas melódicas. Luís Filipe de Castro Mendes aproxima-se dessa maneira oblíqua, alusiva de exprimir a emoção. Os inúmeros envios a outros poetas (entre os quais, Camões, Pessanha, Teixeira de Pascoaes, Pessoa, Rimbaud, Nuno Júdice, António Franco Alexandre, Ezra Pound, Joaquim Manuel Magalhães) revelam o tributo a nomes tutelares da arte de escrever poesia, ou d’O jogo de fazer versos, independente de sua maior ou menor inserção nos mais variados cânones. Aquilo que Fernando Pessoa fala a respeito de Pessanha pode se aplicar também a ele: para ser poeta não é necessário trazer o coração nas mãos, mas trazer nelas a sombra dele. O poema – essa partilha silenciosa – surge da consciência da linguagem como instância de encobrimento da subjetividade.
 Surgida após a consolidação de um novo estatuto de poesia no contexto português pós-colonial – o que equivale dizer: após a contenção da poesia 61, após a Poesia Experimental e após Cartucho -, a poesia de Luís Filipe de Castro Mendes, especialmente no livro referido, articula-se, de forma amadurecida, aos jogos de citação e interlocução típicos dos anos 90. Entretanto – e esta se torna uma das suas mais interessantes marcas – sua dicção poética revela-se tendente a um rigor estrutural de efeitos melódicos e métricos, raro nos dias que passam:
Arregacei as mangas ao poema.
a tudo fiz soneto: aqui, além...
e nada em mim conheço que não trema
dum frio que não entende mais ninguém.
anda perdida em mim a noite pura,
com restos de verdade e literatura...
A ideia de poesia como jogo (e nesse aspecto o epigrama apresenta-se como lugar de exercício) alia-se quase sempre a um intento conceitual, inerente ao mais rasteiro devaneio lírico, que jamais abdica do apuro e cuidado da síntese: “Num só puro fulgor assim devolve / sua luz toda a areia do deserto”. Mais do que prática de expedientes retóricos, a poesia é uma aposta de aprendizagem.
Entender que a poesia subverte
tudo o que a torna presa do instante;
calar a própria dor, quando promete
mais do que sabe o coração amante.
(“Contrafações I”)
Ao referir o aspecto lúdico da atividade poética, o Autor nomeia o traço de aventura e risco que a acompanha. A elaboração linguística resulta sempre encoberta por uma camada fluida de sonoridade que a rima liberta, ao invés de aprisionar: “Nós, que perdemos mais do que a medida, / fizemos do delírio álibi / de enredar a poesia com a vida / rasteira e pobre que se vive aqui”. Posicionado na atmosfera elegíaca da poesia dos anos 80, Luís Filipe tem consciência da extensa rede que liga a melancolia a outras manifestações poéticas portuguesas (seja sob a roupagem da saudade ou da mágoa), desde os trovadores medievais até a poesia contemporânea. Interessa ao poeta não apenas o registro da experiência subjetiva, mas o discurso dialógico a que as palavras de ordem e as canções da Utopia que erravam pelo ar na Lisboa inflamada dos idos de 1975 comparecem (Cf. o poema “Elegia”).
O seu legado constitui o retorno às formas tradicionais e a partilha do cotidiano através das palavras, entre outras contribuições que, desde Ruy Belo e Herberto Hélder, possibilitaram à poesia portuguesa dialogar com a poesia europeia contemporânea, sem prejuízo da especificidade do contributo ibero, alicerçado em séculos de experimentação lúdica da palavra:
Qualquer que seja a música sentida,
nenhum poema dura se o não vê,
essa razão que colhe dentre a vida
outra apagada teia que nos lê.
(“Alguma poesia”)

Referência bibliográfica:

MENDES, Luís Filipe de Castro. O jogo de fazer versos. Lisboa: Quetzal, 1994.

(Resenha publicada anteriormente em: Revista do Centro de estudos portugueses, 22, Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG,1998, p.275-276)


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