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sexta-feira, 15 de abril de 2016

O gosto da oposição, segundo Machado de Assis



            No âmbito do processo de impeachment da presidente Dilma, a sensação de que vale a pena indignar-se é reconfortante. Cabe registrar que a indignação, nos últimos meses, atingiu o placar de 70% da população, o bastante para ratificar que a vitória nas urnas nem sempre é sinal de sucesso de gestão. Cansativo, o movimento no sentido de convencer pessoas traz no seu bojo recompensas marcantes, como o reconhecimento de que o povo não compactua com a corrupção e a incompetência, quando percebe o logro de que foi vítima.

                                                            ( Imagem: unicamp.br)

      Este espaço não é uma trincheira de luta política. Recolhe, vez por outra, comentários mais veementes, de insatisfação e crítica, por conta dos reflexos da atuação política na esfera cotidiana. Alguma coloração de rebeldia e descrédito em relação ao poder constituído faz parte da consciência cidadã. Desse repertório participam muitas páginas dos clássicos. No caso da literatura brasileira, entre inúmeras outras, destaca-se uma passagem do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Convém, no entanto, resguardar o risco de retirar uma frase de seu contexto e lançá-la desprotegida, noutra latitude. Ainda mais em se tratando de um texto refinado e reflexivo, como o deste autor. Ainda mais no romance citado, em que o jogo do contraditório alicerça e fundamenta o essencial da trama. Sem mais delongas, vamos a um parágrafo do cap. XXXIX, intitulado “Um gatuno”:

            “Mas então?... perguntarás tu. Aires não perguntou nada. Ao cabo havia um fundo de justiça naquela manifestação dupla e contraditória; foi o que pensou. Depois, imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instinto de resistência à autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição”.



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