Autores dos anos
70, alçados à categoria de canônicos, requerem nova leitura, enriquecida por
camadas cristalizadas de recentes avaliações. Ainda mais quando se apresentam
em novas roupagens, como Pedro Nava, o grande impulsionador das memórias em nossa literatura, reeditado recentemente pela Companhia das letras.
Toda
revisão comporta questionamento de créditos e um novo olhar. Atenho-me, por ora, a dois livros,
Chão de ferro [1] e
Beira-mar, devido ao maior
investimento emocional neles investido.
De imediato, releve-se que o gênero memórias requer a celebração de um pacto,
este de natureza pré-textual, com desdobramentos no envolvimento do leitor com
o texto. Na terceira parte do capítulo 30 de O relógio e o quadrante, o crítico Álvaro Lins, em geral certeiro
em suas observações, considera que um dos domínios exigidos ao memorialista
seria a capacidade de “imprimir às recordações aquela configuração concreta das
coisas que passam a ter uma segunda existência” [2].
No caso de Pedro Nava, não se discute a pertinência dessa premissa, apenas se
constata que seu memorialismo assenta-se num pendor excessivo ao estatuto
descritivo, quase sempre vazado num registro erudito. Volvidas as primeiras dez
páginas, o leitor dá-se conta do que o aguarda, nas mais de quatrocentas
páginas seguintes. O tom solene, o vocabulário precioso, as notações
cientificistas, a sintaxe por vezes atropelada, em busca de efeitos, certa
negligência na pontuação, com o passar das páginas, toda essa miscelânea
estilística deixa de surpreender, torna-se um tanto familiar. Esse é o estilo
do autor, (na retórica tradicional, dizia-se que o estilo é o homem), a decisão
de continuar ou não a leitura implica a aceitação do produto que se oferta.
A ênfase ao retórico, a procura de efeitos, os longos parágrafos,
encavalados em períodos extensos, cascateantes, verborrágicos, altissonantes, são
uma constante. O vocabulário, já de si empolado, rebuscado, hesitante entre o
diletantismo e a precisão realista, resulta alvoroçado e retorcido, pelo
acúmulo de termos extraídos da Medicina, deixando evidente tratar-se de um
autor que teve uma formação nesta área, um médico autor. Por sua vez, a
tendência plástica, brilhante, da linguagem, o seu feitio visual atestam a
experiência do artista plástico que o autor sempre foi. Outro escritor talvez
escrevesse dessa forma, negligente: descia a rua tal chutando cascalhos e
calhaus. Nava faz questão de dizer: “Quando
desci pela primeira vez a rua Caraça, chutando seus calhaus de crisopaco,
vermelhão, aço e ferrugem – fui ouvindo aos poucos o ruído de águas despencando
que ia aumentando” (p.180). Da mesma ordem as plantas são referidas com extremo
rigor expressivo, numa precisão cirúrgica: “A fachada era passada de um azul
muito claro realçado por saliências tonalidade sorvete de creme. Tinha uma
pequena varanda lateral cujas colunas de madeira logo seriam enroladas pelo
caule flexuoso dos estefanotes plantados por Minha Mãe” (p.181). Quem ainda
resistia à leitura, acaba fisgado, totalmente nocauteado diante da bela página
sobre sonhos e pesadelos, iniciada com este prelúdio: “O rio do subconsciente não
para de correr como não param a circulação, a respiração, as funções
misteriosas da regulação da economia. Aquele curso subterrâneo aflora às vezes
em sonhos ora brandos, ora duros – geralmente duros” (p.88).
Ao vocabulário pomposo, de tendência parnasiana, afeito a adornos e
efeitos múltiplos, acresce o uso dosado, por isso, adequado de termos coloquiais,
condizentes com o preceituário do primeiro modernismo: “Interrompia de vez em
quando o período ou o verso para chamar a atenção para o caso – vejam o caso! vejam
o caso! Nós não entendíamos bolacha mas achávamos linda sua dicção.” (p.43).
Noutro momento, uma indisposição física ou doença é referida como “uma
sapiranga”: “Às minhas mazelas dessa época, especificamente a uma sapiranga,
devo ter conhecido o famoso dr. Moura Brasil” (p.84).
As descrições anatômicas de
personagens carregam adiposidades singulares, ditadas por um temperamento
detalhista, de um pintor que consegue transferir para as palavras a precisão do
traço e o fascínio pelas cores, amparado em referências clássicas:
Éramos de toda qualidade. Obesos e
magros, atletas como o Marcelo Miranda Ribeiro, Hércules como o Xico Coelho Lisboa, escanifrados
astênicos como o Cagada, pernaltas, borra-baixinhos, joelhos varos e valgos,
pés chatos como os do Baco de Miguelângelo
ou arqueados como os do Édipo de
Ingres, todas as anatomias ali se confundiam: desde as mais raras onde se podia
vislumbrar ora o braço desfechante do Apolo
do Belvedere, ora o esterno-cleido do Davi
da Academia, a panturrilha do Discóbolo
de Miron, os maléolos do Aurige de
Delfos – até às mais numerosas, frolando o disforme, os aplásicos, os grotescos
e os quase patológicos que Charcot e Richer foram buscar, também, nas galerias
dos museus (p.97)
Outro aspecto, bastante mencionado
em relação ao estilo de Nava, destaca a sensualidade revelada na sua linguagem.
Antonio Sérgio Bueno, em síntese perfeita, afirma: “Nava escreve com todos os
seus sentidos despertos e por isso suas revivências transvivem em sabores,
sons, sensações tácteis – fortes apalpadelas – que ao nos remeter aos muitos
Navas que se abrigam sob o nome de Pedro, nos devolvem à nossa própria
pluralidade,” [3], como se
constata a cada episódio de sua vertiginosa saga.
Na
pulverulência finamente tamisada eu reconhecia com agrado a que provocávamos
nas nossas excursões do tempo do Anglo – a ferrugem sutil, o óxido tênue e
vaporoso do chão de ferro de Belo Horizonte. Ah! chão prodigioso, tinto de
todas as gradações! Partindo dos graves de trombone do marrom até às clarinadas
amarelouro du petit pan de mur de Vermeer
de Delf que é como chama de nastro ardente e ondeado de cabeleira
pré-rafaelita ou, então, cintilação posta pelos mestres venezianos no penteado
das doggarezzas. Às vezes some essa iridência e o giallo clareia, fica triste, feio, de um plácido deslavado de osso
seco mas que logo se adensa – palha, depois camurça, bege, cromo, camomila e um
ouro tornado implacável pelas faíscas de mica (p.179-180).
Parece-me que,
no mergulho que empreende no passado, através de uma memória privilegiada e
prodigiosa, atiçada por processos voluntários ou não, Nava deixa-se contaminar
pela postura evocativa. Convém-lhe, quem sabe, por um travejamento entre a
vivência e a expressão, em que pese talvez uma nesga de fatalidade, não alterar
os móveis e as peças de um território recôndito e nebuloso que, como tal,
precisasse manter-se intocado. Esta é também a posição de Antônio
Sérgio Bueno, quando afirma: “O memorialista também quer preservar intocado seu
tempo vivido. Sua escrita é uma forma e um ‘formol’ ”[4].
[2]
LINS, Álvaro. O relógio e o quadrante. Ensaios
e estudos (1940-1960). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1964, p. 381.
[3]
BUENO, Antônio Sérgio (Org.). Pedro Nava, memória e tempo. Minas Gerais, Belo Horizonte, n.895, p.26, nov.1983. Suplemento
literário, 12 p. Ed. especial.
[4] BUENO, Antônio Sérgio.
Vísceras da memória – uma leitura da obra de Pedro Nava. In: BARROS, José
Américo de Miranda (org.). Teses 1994. Belo
Horizonte: Pós-Graduação em Letras/ UFMG, 1995, p. 87.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BUENO,
Antônio Sérgio (Org.). Pedro Nava, memória e tempo. Minas Gerais, Belo Horizonte, n.895, p.26, nov.1983. Suplemento
literário, 12 p. Ed. especial.
BUENO,
Antônio Sérgio. Vísceras da memória – uma leitura da obra de Pedro Nava. In:
BARROS, José Américo de Miranda (org.). Teses
1994. Belo Horizonte: Pós-Graduação em Letras/ UFMG, 1995.
LINS,
Álvaro. O relógio e o quadrante. Ensaios
e estudos (1940-1960). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1964.
NAVA,
Pedro. Chão de ferro. São Paulo:
Companhia das letras, 2012.

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