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domingo, 3 de janeiro de 2016

Escritores de Pará de Minas

Livro do mês:

           Merecem registro iniciativas direcionadas à implementação de atividades culturais, em especial quando ocorrem longe das metrópoles. Em época de certa aridez e vazio de práticas literárias, são benvindas as ações práticas no sentido de consolidar o interesse pelas ocupações do espírito. Dignas de atenção duas publicações vinculadas à Academia de Letras de Pará de Minas: Pará de Minas em tempo de literatura – ensaios: escritos e escritores e Bianuário 2014 – 2015/ Academia de Letras de Pará de Minas.
            O primeiro livro, de que me ocupo a seguir, constitui um completo inventário de escritores nascidos na cidade do centro-oeste mineiro. Os autores (em torno de cem) são focalizados através de breves ensaios analíticos e nota bibliográfica. Alguns deles já ultrapassaram de muito os limites geográficos de Pará de Minas e se firmaram no cenário cultural mineiro e brasileiro.


Benedito Valladares (1892-1973), legendário governador do estado (entre 1935 e 1945), publicou dois romances que marcaram época, consignados de forma elogiosa em inúmeros dicionários e bibliografias, pelo mergulho nos costumes eleitorais, como peças que tecem uma irônica e detalhada crônica da vida política brasileira, com suas trapaças e rivalidades - Esperidião (1951) e A lua caiu (1962).
 Antônio Augusto Melo Cançado (1912-1981), destacado homem público, de reconhecida atuação  em tempos recentes no magistério superior, na área jurídica e pedagógica, publicou Patrícios e plebeus (1946), Temas e figuras (1949), Presença de Vila Rica (1965).
Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), com acerto referido como “o mais expressivo autor da cidade”, produziu uma literatura de forte impregnação poética e filosófica, muitas vezes equivocadamente rotulada como infantil, em mais de vinte títulos, dos quais vale citar: O Peixe e o pássaro (1971), Mário – ou e pedras, conchas e sementes (1982), Ciganos (1983), Indez (1988), O olho de vidro de meu avô (2004), Por parte de pai (1995), Raul e o luar e O pato pacato (2004), Vermelho amargo (2011).
Rodrigo Duarte (1957), doutor em filosofia, especialista na obra de Adorno, tem se destacado na hermenêutica desta vertente analítica, em obras marcantes, como Mímesis e racionalidade - A concepção de domínio de natureza em Theodor W. Adorno. (1993), Adorno. Nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano. (1997), Dialética do esclarecimento (2002), Teoria crítica da indústria cultural (2003).
Terezinha Pereira, nascida em 1948, tem se projetado como tradutora e hábil ficcionista, com incursões bem sucedidas na vertente do fantástico e na descrição de costumes, com a novela Em confidência (2000), a coletânea de contos Contemplação (2005) e o romance Trindade (2010), premiado pela Prefeitura do Recife.
Além desses autores, a obra cumpre a função de divulgar nomes igualmente capacitados e talentosos, dentre outros, Ângela Leite Xavier, Benjamin de Oliveira (autor de dramas circenses), Déa Miranda, Flávio Marcus da Silva, Hila Flávia, Lígia Muniz, José Eustáquio de Oliveira (autor de Asas do homem - memórias de um piloto), José Gastão Machado (trovador de méritos), Malluh Praxedes (presente no cartaz Mulheres emergentes, n. Zero), José Roberto Pereira, Márcio Simeone, Orlando Moreira, Paulo Roberto dos Santos, Pedro Moreira, Pedro Salles, (autor de uma notável História da medicina no Brasil), Robson Correia de Almeida e Valmir José. No afã de ser abrangente e representativa, inclui a coletânea autores falecidos e vivos, num leque de referência bastante distendido, incorporando formas tradicionais, produções diversificadas, de monografias filosóficas a peças de teatro oriundas das lonas circenses, poesia caipira (resenhada por Oscar Mendes como poesia matuta), reflexões de bem viver, trovas, súmulas de recorte histórico ou folclórico. Este objetivo plural, aliás, vem exposto na “Apresentação”, assinada por Terezinha Pereira, ao ressaltar o intento de registrar toda produção local “por mais singela essa possa parecer ao olhar de apreciadores das letras”.
Dotada de um aeroclube bem estruturado, a cidade Pará de Minas sobressai ainda no campo do saber e das letras, vocacionada ao pioneirismo na vertigem das alturas, na esteira de conhecido verso de Verlaine, – “que teu verso seja a coisa voejante/ que se sente fugir de uma alma emigrada/ para outros céus e outros amores” (poema “Arte poética”). Bons ventos, boa leitura.


PEREIRA, Terezinha et alii. Pará de Minas em tempo de literatura - ensaios: escritos e escritores. Pará de Minas: ALPM, 2012.
AAVV, Bianuário 2014 – 2015. Academia de Letras de Pará de Minas. Pará de Minas: ALPM, 2015.


3 comentários:

  1. Caro prof. Edgard, seu comentário aos livros produzidos em Pará de Minas leva-nos a acreditar que estamos numa boa trilha.Uma grande honra para nós. Um grande abraço,
    Terezinha

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  2. A Literatura feita em Minas ganha destaque com esse estudo, que vem Pará de Minas para todo o Estado de minas Gerais e para o Brasil. A verdade é que esse trabalho dá peso, cor, dimensão de uma literatura que, feita no interior, tem os olhos voltados para a universalidade. Com isso, Pará de Minas revela-se polo de cultura a ser acompanhado, seguido, imitado; verdadeiro exemplo.Parabéns, Edgard, pela escolha feliz e pelo tratamento dado à matéria. É merecido o destaque de Livro do Mês.

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  3. Obrigado pelo que me diz respeito. O grande mérito dos compiladores foi seguir um critério de tombamento baseado na receptividade e na inclusão de nomes, como compete ao historiador de literatura que se preze.

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