Procura-se cada vez mais
profissional competente no Brasil. Dentre eles, procura-se também um
historiador de literatura. Ao invés de me deter no livro de José Guilherme Merquior (1941-1991), um dos mais brilhantes ensaístas de seu tempo, optei por discretear a respeito de sua temática - a história da literatura brasileira, além de apresentar uma bibliografia sucinta sobre o assunto. Para situar o contexto, não custa referir que Merquior sofreu forte patrulha, por ter denunciado em público que a filósofa Marilena Chauí teria plagiado o filósofo francês Claude Lefort.
(Imagem: estadao.com.br)
O Brasil pode
se considerar privilegiado pelo competente elenco de historiadores da
literatura revelados entre o final do século dezenove e os anos setenta do
século vinte. O terreno é um tanto espinhoso, tentemos desbastar o que for possível para uma visão
mais nítida. De lá para cá, o cenário foi se esvaziando, em amplitude e
densidade analítica. Os exercícios mais provectos foram efetivados
por Inocêncio Francisco da Silva (Dicionário
bibliográfico português, publicado entre 1858 e 1923, em Lisboa) e Ronald
de Carvalho (Pequena história da
literatura brasileira, de 1919). Curiosamente, Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876) nem era brasileiro e deixou registradas queixas a respeito da dificuldade em obter informações e livros de autores brasileiros em Portugal; mesmo assim, a ele se deve o grandioso projeto por ele iniciado. Na sequência desses pioneiros, dois autores, nascidos no século dezenove,
dominam nesta área até meados do século XX: Sílvio Romero (1851-1914) e José
Veríssimo (1857-1916).
Não seria exagero afirmar que com eles tem início a sistematização crítica da produção literária brasileira como um todo, em visão abrangente. Com suas idiossincrasias e preferências discutíveis, pouco importa. A História da literatura brasileira de Sílvio Romero data de 1888, (5ª. edição em 1953). Influenciado pelo cientificismo, Sílvio Romero tropeça em alguns momentos (considera Tobias Barreto superior como poeta a Castro Alves, subestima Machado de Assis). A respeito desta obra, argumenta José Guilherme Merquior:
Não seria exagero afirmar que com eles tem início a sistematização crítica da produção literária brasileira como um todo, em visão abrangente. Com suas idiossincrasias e preferências discutíveis, pouco importa. A História da literatura brasileira de Sílvio Romero data de 1888, (5ª. edição em 1953). Influenciado pelo cientificismo, Sílvio Romero tropeça em alguns momentos (considera Tobias Barreto superior como poeta a Castro Alves, subestima Machado de Assis). A respeito desta obra, argumenta José Guilherme Merquior:
“... os
juízos estéticos de Sílvio Romero são às vezes claudicantes, às vezes
insustentáveis (...); contudo, o estilo ágil e combativo facilita a leitura, e
o patriotismo sem ufanismo faz desse colosso historiográfico, ao qual se deve a
fixação definitiva (em termos globais) do nosso corpus literário, um depoimento fundamental sobre o itinerário da
cultura brasileira” (MERQUIOR, 1977, p.112).
Sem o
instrumental teórico proclamado por Romero, José Veríssimo produz uma obra
equilibrada e lúcida, valoriza Machado de Assis e se pauta por critérios literários. Afeiçoado à poesia romântica, mostra-se pouco receptivo à poesia simbolista, que não compreende e mais condescendente em relação à poesia parnasiana. Sua História da literatura brasileira foi
publicada no ano de sua morte, 1916. Depois surgiram, dentre outras, a obra de Otto Maria Carpeaux (Pequena
bibliografia crítica da literatura brasileira, lançada em 1949), e a de Nelson
Werneck Sodré (História da literatura
brasileira - seus fundamentos econômicos, de 1938). A partir de então, as diversificam-se
os objetivos e começam a surgir obras concebidas como recortes regionais
(literatura mineira, riograndense, etc.) ou centradas em movimentos, sejam temáticos ou
de gêneros específicos (os panoramas de poesia de vários estilos, estudos específicos
e globais de contos, romances ou poesia). Nem sempre nas perspectivas e enfoques regionais se
alcança um rigor analítico vertical, apesar do acerto de inúmeras sínteses e a
riqueza de visões panorâmicas, quando não se restringe a mera enumeração de
nomes (como ocorre por vezes na História
da literatura mineira, de Martins de Oliveira). Nestas coleções
temáticas ou de fixação num determinado período, esfuma-se o açodamento em
torno do ideal nacionalista, visível na maioria dos historiadores literários, à exceção de José Veríssimo,
sobressaindo o gosto de descobrir talentos (na antologia Poesia simbolista, de 1965, Péricles Eugênio
da Silva Ramos acolhe o poeta Pedro Kilkerry, até então desconhecido) e a
pesquisa interessada em parâmetros textuais e estilísticos. Na
década de cinquenta, Afrânio Coutinho organiza a monumental coleção A literatura no Brasil, à frente de um
selecionado rol de especialistas (publicada então – 1956-1959 - em três, hoje
em seis volumes). No início dos anos noventa, foi lançada a Enciclopédia da literatura brasileira,
dirigida por Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, posteriormente atualizada sob a coordenação de duas pesquisadoras, Rita Moutinho e Graça Coutinho.
Dentre os manuais mais recentes, nem todos disponíveis, em que o escopo didático se alia ao rigor analítico, citam-se os trabalhos de José Guilherme Merquior, Antônio Soares Amora, Antonio Candido, José Aderaldo Castelo, Massaud Moisés e Alfredo Bosi. Nos planos de Merquior, previa-se um segundo volume, de Euclides da Cunha em diante, infelizmente interceptado pela morte precoce do autor. Suas leituras correspondem a mergulhos interpretativos lúcidos e desafiadores, aparelhados por enfoques altamente eruditos. Como todo trabalho dessa envergadura, porém, apresenta algumas lacunas e omissões, tais como o altivo desinteresse pela obra de Lima Barreto e certa miopia em relação a Afonso Arinos, em contrapartida ao destaque dado à obra ficcional e ensaística de Graça Aranha.
Dentre os manuais mais recentes, nem todos disponíveis, em que o escopo didático se alia ao rigor analítico, citam-se os trabalhos de José Guilherme Merquior, Antônio Soares Amora, Antonio Candido, José Aderaldo Castelo, Massaud Moisés e Alfredo Bosi. Nos planos de Merquior, previa-se um segundo volume, de Euclides da Cunha em diante, infelizmente interceptado pela morte precoce do autor. Suas leituras correspondem a mergulhos interpretativos lúcidos e desafiadores, aparelhados por enfoques altamente eruditos. Como todo trabalho dessa envergadura, porém, apresenta algumas lacunas e omissões, tais como o altivo desinteresse pela obra de Lima Barreto e certa miopia em relação a Afonso Arinos, em contrapartida ao destaque dado à obra ficcional e ensaística de Graça Aranha.
O país avançou
em muitos aspectos, a população triplicou, os escritores também, numa sociedade
cada vez mais dinâmica e complexa. Há vagas para historiadores da literatura,
no Brasil.
AMORA, Antônio
Soares. História da literatura brasileira.
São Paulo: Saraiva, 1960.
BOSI, Alfredo.
História concisa da literatura brasileira.
São Paulo: Cultrix, 1970.
CANDIDO,
Antônio. Formação da literatura
brasileira. São Paulo: Martins, 1959. 2 v.
CANDIDO,
Antônio; CASTELO, José Aderaldo. Presença
da literatura brasileira. 3ª. ed. São Paulo: Difusão Européia do livro,
1968. 3 v.
CASTELO, José
Aderaldo. A literatura brasileira. A
era colonial. São Paulo: Cultrix, 1965, v.1.
CÉSAR, Guilhermino.
História da literatura do Rio Grande do
Sul. Porto Alegre: Globo, 1956.
COUTINHO,
Afrânio et al. (Org.). A literatura no
Brasil. Rio de Janeiro: Sul Americana, 1956-1959. 3 v.
COUTINHO,
Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia
de literatura brasileira. 2ª. ed. rev., ampl., atual. sob a coord. de
Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fund.
Biblioteca Naional.; Academia Bras. de Letras, 2001.
LIMA, Ébion
de. Lições de literatura brasileira. 3ª.
ed. rev. e atual. por Dino Del Pino. São Paulo: Salesiana, 1965.
LUCAS, Fábio. Poesia e prosa no Brasil. Belo
Horizonte: Interlivros, 1976.
MARQUES,
Oswaldino. Ensaios escolhidos. (Teoria
e crítica literária). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.
MARTINS,
Wilson. História da inteligência
brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. 7 v.
MERQUIOR, José
Guilherme. De Anchieta a Euclides. Breve
história da literatura brasileira. Rio
de Janeiro: J. Olympio, 1977.
MOISÉS,
Massaud. A literatura brasileira através
de textos. São Paulo: Cultrix, 1971. 21ª. ed., 1998.
MOISÉS,
Massaud. O simbolismo (1893-1902),
São Paulo: Cultrix, 1966. 4ª. ed. 1973.
MOISÉS,
Massaud. História da literatura
brasileira. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1983. 4ª. ed. 1997.
MURICI,
Andrade. Panorama do movimento simbolista
brasileiro. Brasília: INL, 1973. 2 v.
OLIVEIRA,
Martins de. História da literatura
mineira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1958.
PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira. São Paulo: Annablume, 1999.
PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira. São Paulo: Annablume, 1999.
PORTELA,
Eduardo. Dimensões. Crítica
literária. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1958-1965. 3 v.
RAMOS,
Péricles Eugênio da Silva (Comp., introdução e notas). Poesia simbolista. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
SODRÉ, Nelson
Werneck. História da literatura
brasileira; seus fundamentos econômicos. São Paulo: Cultura brasileira,
1938. 6ª. ed. Civ. Brasileira, 1976.


Nenhum comentário:
Postar um comentário