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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lúcio Cardoso

Livro do mês:   O desconhecido 


      Incluo-me, com honra, no seleto e ilustre clube dos admiradores de Lúcio Cardoso, autor mineiro, introdutor do romance psicológico na moderna ficção brasileira, cultuado por Clarice Lispector, Walmir Ayala, Octavio de Faria, autores com os quais conviveu na cidade do Rio de Janeiro dos anos quarenta a sessenta. Nos dias que correm, sua obra tornou-se objeto de estudo por parte de Valéria Lamego, Ésio Macedo Ribeiro, André Seffrin, Mario Carelli, Andréa Vilela, José Américo Miranda, Marília Rothier, Antonio Arnoni Prado e Ruth Silviano Brandão, dentre outros.
Algumas avaliações críticas, produzidas ao longo dos anos, passaram a cristalizar-se com estatuto canônico. O esforço de análise das modulações interiores das personagens, a sondagem subjetiva, constituem traço inarredável e intenso de sua ficção. Não há como negar seu pioneirismo, em nossas letras, na tentativa envolvente de perscrutar o curso do pensamento e das emoções das personagens, enredadas em circunstâncias fortemente carregadas de reações e devaneios. O que nem sempre se releva resulta na sofisticada dimensão estética, a intricada contaminação poética de que se reveste a ficção do criador de A luz no subsolo (1936), Mãos vazias (1938), O desconhecido (1940), Dias perdidos (1943), Inácio (1944), O enfeitiçado (1954), Crônica da casa assassinada (1959). O escopo narrativo, longe de se erigir em objetivo primeiro, apresenta-se em geral associado a amplo e arejado mergulho na atmosfera subjetiva.  Tal processo denomina-se percepção poética do universo interior das personagens.


Dentre os críticos da primeira hora, Álvaro Lins foi certeiro ao perceber nele “um romancista de análise e de introspecção”, “um escritor que nenhum preconceito e nenhum escrúpulo perturbam no seu propósito de revelar, em profundidade, as forças íntimas e mais desconhecidas que movimentam os homens, os seus sentimentos, os seus atos” (LINS, 1963, p. 109). Prossegue, à frente: “Os recursos do Sr. Lúcio Cardoso voltam-se todos para as lutas de sentimentos, para as paixões que destroem e aniquilam, para as revoltas que sufocam e transbordam, para os amores, os ódios, as invejas, os ciúmes que parecem captar e contêm a essência mesma da vida” (LINS, 1963, p.113).
O desconhecido ratifica a importância do legado ficcional do autor. Por vezes altivamente preterido, por críticos de renome, o legado ficcional de Lúcio Cardoso permanece como um dos pontos elevados da nossa literatura. Logo no início do romance destaca-se o motivo do pai ausente, exaustivamente explorado. O protagonista, imerso em recordações do passado, detém-se na imagem do pai indiferente às lidas domésticas, aquele que “partia como uma sombra, como o tardio fantasma que sempre fora” (CARDOSO, 2000, p.33). A ausência do pai atormenta o protagonista: “Quantas vezes o fitava com olhos úmidos, ansioso para que uma palavra mais carinhosa levantasse a porta do véu misterioso” (CARDOSO, 2000, p. 32-33).

                                                     
                                                     (Imagem: geneall.net.)

         Novela centrada numa única personagem, O desconhecido estrutura-se em torno do esboço de seus sentimentos, caráter e paixões. Um peão, cujo passado permanece incógnito, decide estabelecer-se numa fazenda interiorana, em que se movimentam pessoas estranhas. Nada de especial ocorre, aparentemente, a não ser o interesse da proprietária da fazenda pelo novo empregado. Dominada pela obsessão da posse, Aurélia tenta transformá-lo em amante. José Roberto torna-se amigo de Elisa, uma criada, e de Paulo, outro empregado humilde que almeja uma vida melhor, longe dali. Numa precipitação descontrolada, o protagonista mata Paulo, refugiando-se em seguida numa pensão, onde é flagrado no primeiro e último capítulo. A cena do crime, praticado em vertigem descontrolada, tem sido reiteradamente elogiada.
“Lúcio Cardoso evidencia notavelmente até onde pode chegar a densidade dramática das paixões incontroladas, mostrando a miserável realidade de certos sentimentos fundamentais no coração humano. E o que faz aumentar a dramaticidade da novela é o princípio de indeterminação, que a atravessa como uma onda. A surpresa parece ser o único instrumento com que conta o romancista para levantar e desdobrar as situações. Os próprios personagens nada sabem a respeito do seu destino e o que lhes acontece torna-se para eles uma surpresa como fora para os leitores. E nenhum personagem consegue fugir ou evadir-se do destino sempre trágico que o espera” (MAIA, 1970, p.130-131).
O ritmo dos acontecimentos, delineados sob a chancela de rigorosa análise, revela que o autor não tem pressa em relação ao andamento da intriga. Em narrativa lenta, os episódios que envolvem a temporada de José Roberto na fazenda dos Cata-Ventos evoluem de forma indecisa, vagarosa. Qualquer detalhe, ruído, mudança de clima ou de comportamento motiva um comentário ou reflexão do narrador, sempre vigilante e atento.

CARDOSO, Lúcio. O desconhecido. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2000.
LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
MAIA, Pedro Américo (Org.). Dicionário crítico do moderno romance brasileiro. Belo Horizonte: São Vicente, 1970. Grupo Gente Nova.


Um comentário:

  1. O nosso introspectivo Lúcio Cardoso aparece como LIVRO DO MÊS. Justa homenagem. O registro é sobremaneira importante para divulgação desse mineiro mais ou menos esquecido. Na ambientação dos acontecimentos (que são mais psicológicos) reside, talvez, essa porta aberta para o esquecimento. A imprecisão no contorno de sentimentos, a luz difusa na construção da história que é também dispersa e sob certos aspectos, secundária, evidenciam a filiação do autor ao romance psicológico, do qual é destacado representante. Ótima escolha. Parabéns ao autor da excelente resenha.

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