Livro do mês:
Dentre as atividades que se tornam, por força de contingências variadas e complexas, rarefeitas, a leitura de ficção mantém-se, se não vigorosa, pelo menos altiva. Sempre haverá quem se interesse em ler um poema ou narrativa. Exercida em sua capacidade plena, compreende a leitura uma prática interativa, como uma espécie de via de mão dupla. A relação leitor/obra tem suscitado reflexões pertinentes, em todas as épocas, tributárias do legado cultural do contexto em que se desenvolveram.
Dentre as atividades que se tornam, por força de contingências variadas e complexas, rarefeitas, a leitura de ficção mantém-se, se não vigorosa, pelo menos altiva. Sempre haverá quem se interesse em ler um poema ou narrativa. Exercida em sua capacidade plena, compreende a leitura uma prática interativa, como uma espécie de via de mão dupla. A relação leitor/obra tem suscitado reflexões pertinentes, em todas as épocas, tributárias do legado cultural do contexto em que se desenvolveram.
Não
é apenas o texto que endereça perguntas, vivências, imagens, noções e
impressões a quem lê. O leitor é também um espaço irradiador de reações, por
ele transferidas ao texto. Nenhuma mente se apresenta diante de um texto
completamente vazia, neutra, virgem. Uma bagagem de vivência e memória a
acompanha. Quem lê também dialoga com o texto: faz-lhe perguntas,
acrescenta-lhe dados.
As
reações suscitadas pelas palavras radicam em geral do contexto em que foram
empregadas e do ofício laboral de quem as lê. A palavra tijolo por certo
desencadeará reações distintas, se lida por um pedreiro ou um jornalista. Da
mesma forma a palavra nuvem determina noções distintas, se lida por um
metereologista ou um técnico em computação.
Distante
de rasas assertivas de base sociológica, outras são as preocupações da teoria
literária. Crítica literária brasileira, mineira de Araxá, professora de literatura portuguesa na
UFMG, tendo influenciado uma geração, na qual me incluo, depois em Portugal,
para onde se transferiu em definitivo em 1970, Maria Lúcia Lepecki (1940-2011) participou
ativamente da vida cultural em
Lisboa. Sua atuação acadêmica expandiu-se também em Cabo Verde. Autran
dourado: uma leitura mítica, único título dedicado à literatura brasileira, ganhou o Prêmio Nacional de Crítica, no Brasil, em 1977. Em Portugal, foram
publicados alguns títulos marcantes: Eça na ambiguidade (1974), Ideologia
e imaginário: ensaio sobre José Cardoso Pires (1978), Meridianos do texto (1979), Romantismo
e Realismo em Júlio Dinis
(1980), Sobreimpressões, (1988), Ensaios de retórica e de interpretação (2004), a que a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o Grande Prêmio de Ensaio literário.
Na
apresentação de Sobreimpressões, a
autora empreende uma despretensiosa teoria da leitura: considera-a uma prática
científica, mais do que um simples hábito ou costume. Como tal, a leitura
apresenta-se como tentativa de investigar as coisas e o mundo, através de um
método aparentemente simples, por ela denominado de processo de
intertextualização, o diálogo mútuo entre leitor e texto. “A grande fonte de
prazer de ler, e não menos das canseiras críticas, é o fato de nunca lermos
fora da intertextualização. Vamos ouvindo o que o texto diz e simultaneamente o
que nós mesmos dizemos, em correlações dificilmente controláveis” (p.14). Em
busca de um método que “evocasse deslocações horizontais ou verticais”, amparada
em conceitos da Biologia, como confessa, esboça um breve mas engenhoso
discurso sobre a interpretação literária. O marco
teórico assenta-se em
Lewis Thomaz , de A
medusa e o caracol. “Tentando fazer dos meus escritos uma proposta,
expressão falível de pontos de vista eventualmente coxos, procuro inscrever
neles um lugar para a contestação. Vou à cata de jeitos de relativizar, e um bom jeito que encontrei foi denunciar as
intertextualizações” (p.15). E prossegue, na busca de elucidar o seu prazeroso corpo
a corpo com os textos: “A denúncia das intertextualizações obedece também a
outro desiderato. Quero apontar com ela o fato de a crítica ser, na sua mais
íntima substância, um modo de imaginarmos sobre a imaginação alheia” (p.16). Ao
comentar o desempenho de Miguel Torga como autor de diário, Lepecki comenta: “No
discurso literário, toda ausência é recuperada
positivamente. Os ‘espaços em branco’, onde o escritor criativo deixou de falar, são ‘reservados’ para a
nossa fala: enriquecemos o texto com o que nele projetamos” (p.139). A crítica
configura-se então como uma tentativa de compreensão partilhada com outrem, o resultado daquilo que teria origem no
“compreender para si – gozar o texto entre a vigília e o devaneio” (p.20).
O
volume enfeixa ensaios e estudos que versam sobre um rol variado de autores de
língua portuguesa. Além dos nomes de eleição, objeto de análises anteriores, como Camilo Castelo Branco, Augusto Abelaira, Virgílio Ferreira e
Carlos de Oliveira, Maria Lúcia Lepecki esquadrinha também obras de Almeida
Faria, José Gomes Ferreira, José Saramago, Lídia Jorge, Maria Gabriela Llansol,
Mário Dionísio, Pedro Tamen, Luandino Vieira e Mia Couto.
LEPECKI, Maria Lúcia. Sobreimpressões – estudos de literatura
portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.

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