Demorou 70 anos para que uma
carta de Mário de Andrade (1893-1945) a Manuel Bandeira (1886-1968) fosse
aberta ao público. Nela o renomado escritor paulista, figura central do Modernismo Brasileiro, autor do romance Macunaíma, dos poemas de Paulicéia desvairada, de Contos novos, dos textos críticos de O empalhador de passarinhos, admite ao
amigo sua homossexualidade.
(Foto: Arquivo IEB)
A
revista Época (edição 889, 22 junho
2015) registra a árdua diligência para a liberação do documento, o que só
ocorreu agora, em meados de junho. Trata-se de uma carta de Mário de Andrade ao
poeta Manuel Bandeira, datada de abril de 1928. O espólio literário de Manuel
Bandeira foi doado em 1978, por Maria de Lurdes, companheira do poeta, à
Fundação Casa de Rui Barbosa. Plínio Doyle, então diretor da instituição, dez
anos depois decide, assessorado por uma comissão, interditar o acesso de alguns
documentos desse espólio, dentre os quais, a carta de Mário de Andrade, em
razão de um conteúdo “sensível ou muito íntimo”. Esse conjunto ficaria lacrado
até se passar meio século após a morte de Mário, portanto seria liberado em
1995. À altura, técnicos da Casa de Rui Barbosa opinaram peremptoriamente que a
carta de Mário não poderia ser aberta. Condicionou-se, depois, dado o impasse e interesse de pesquisadores, o acesso a uma autorização expressa
dos herdeiros. Com base na Lei de Acesso à Informação, a revista Época solicitou um pedido à Fundação,
negado em duas instâncias. A revista recorre, por fim, à Controladoria Geral da
União, que estabelece o acesso ao documento. A decisão é acatada pela Fundação para
os outros documentos, mantendo o lacre à carta do modernista, com o argumento de
que liberar poderia trazer “danos irreparáveis” à Instituição, anexando, inclusive,
um parecer de um sobrinho de Mário, favorável à manutenção do sigilo, em
respeito a "questões íntimas" do escritor. O recurso é derrubado pela CGU, com o
entendimento de que “informações pessoais não podem ser protegidas quando
necessárias à compreensão de fatos históricos de maior relevância”.
Na
carta, Mário de Andrade registra os revezes e discriminações que sofria em
decorrência de sua fama de homossexual. Critica o interesse pelo assunto: “Mas
em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, pra você, ou pra
mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros)
homossexualidade? Em nada.
Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há
nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você, que não é
indivíduo de intrigas sociais”. Noutro passo, expõe o assédio costumeiro de que
era vítima: “Me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta
que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua
(veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão)”.
O documento é curioso, numa concepção ousada de linguagem, com torneios coloquiais e de sintaxe peculiares ao estilo do autor. A
matéria tem assinatura de Marcelo Bortoloti, (disponível em epoca.com.br).
BORTOLOTI, Marcelo. A correspondência secreta de Mário de Andrade. Época. São Paulo, n. 889, 22 junho 2015.

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