Livro do mês:
Dentre
as qualidades de narrador, dadas à mostra de sobra por Saramago, avulta, além
do consumado domínio das peculiaridades da língua, um adequado ajuste à
configuração fantasiosa da trama. De tal maneira encontra-se o malfadado revisor
ocupado em compreender as razões de seu erro que, de certa forma, vê-se
projetado pela máquina do tempo, confrontando-se com a suposta realidade de
fatos históricos bem diante dos olhos. Vê-se num campo de batalha, em plena Idade Média ,
entre soldados leais a Afonso Henriques de um lado e do outro, empedernidos
combatentes mouros, duplamente adversários, no terreno político e no religioso.
Como tempero às passagens do enredo, contaminadas de fantasia e detalhadas
notas de cor local, o narrador apela a variados recursos, um deles a referência
ao bagaço, consumido pelos soldados e pelo revisor. Daí decorrem as hesitações,
algum delírio e mudanças de comportamento de personagens.
O
romance História do cerco de Lisboa é
a um só tempo objeto de trabalho de revisão e exercício de releitura de fatos
históricos. A inserção de um clandestino e rebelde não ao texto histórico tem a força de questionar o aspecto
imutável, quase sagrado da História como ciência. O cruzamento de fatos dela
extraídos aos da monótona rotina da vida de revisor medíocre, além de
enriquecer a trama de peripécias e vocábulos pouco usuais, cumpre a finalidade
de emaranhar o fio narrativo, propiciando a observação da ficção dentro da
ficção. Instigado pela autoridade a que se submete enquanto revisor (e futura
parceira amorosa), Raimundo da Silva empenha-se, ele próprio, a escrever uma
outra narrativa histórica, paralela àquela a que se dedicara como parte de seu
ofício. De revisor de textos alheios transforma-se o protagonista em produtor
de texto original, após fortuita sugestão de Maria Sara. “... e está claro que
Raimundo da Silva, que de escritor nada tem, nem os vícios nem as virtudes, não
poderia, em um dia e meio, ter escrito tão e tão variado, que sobre os méritos
literários do que fez não há que falar, por ser isto história, logo ciência, e
por carência de autoridade propriamente dita” (Saramago, 2003, p.141). O
romance passa a trilhar dois atalhos, um relacionado à rotina do revisor, outro
conectado ao embate histórico entre lusos e mouros, às portas da cidade de
Lisboa, cerca de mil anos atrás.
(Imagem: www.arqnet.pt)
A
cidade de Lisboa, até então referida pelo revisor, como paisagem vista de sua
varanda, no alto da Rua do Milagre de Santo Antônio, admite outra incursão,
desta vez uma cidade medieval. Da cidade do presente, seu olhar meticuloso
focaliza a Igreja da Sé, os telhados das casas em linha descendente até
aproximar-se do leito do rio Tejo, fotografando a dinâmica dos turistas nas
ruas da Baixa. Permite-se a liberdade de referir o ruidoso bonde na curva da
Madalena e o vago perfil de um cineasta em atividade. Sobrepõe-se a esta cidade
contemporânea, outra, resgatada em pleno século XII, época do confronto entre
mouros e lusos. Uma torre moura, encaixada numa das portas da cidade, faz
contraponto no presente à casa do revisor. A ficção de Saramago acolhe o
diálogo entre o ficcionista e o historiador, cujo esboço engloba impressões
sobre a criação, o tempo e a escrita. As sutis relações entre história e a
vida, o fingimento e a astúcia literária, os desdobramentos reflexivos sobre a
precariedade da verdade, o ato de corrigir e emendar passam a ocupar a atenção
do narrador. Ao revisar um livro que
narra o episódio do cerco e tomada de Lisboa aos mouros por tropas cristãs no
ano de l l47, Raimundo da Silva adultera-lhe uma passagem. Os cruzados
europeus, em trânsito pela cidade a caminho da Terra Santa, por conta e risco
da emenda do revisor, dizem não, em lugar de sim, à convocação feita por D.
Afonso Henriques, rei de Portugal, em busca de auxílio na batalha contra os
mouros. Jamais um NÃO rendeu tamanha fortuna crítica e retórica. Esse equívoco motiva uma tomada de consciência
do revisor, conduzindo-o a enveredar por uma empreitada nova e inusitada.
Diante da tarefa de escrever seu relato, jogado de súbito na “noite dos
tempos”, reporta algumas reflexões sobre a ficção, espaço “... onde nem as
felicidades narrativas faltam, a alternância do breve e do longo, o corte
súbito, a mudança de plano, a suspensão, até a ironia levemente desrespeitosa”
(Saramago, 2003, p.169). O fragmentado perfil do improvisado escritor vai sendo
elaborado aos poucos, merecendo vez por outra alguma nota complementar: “além
da mais que uma vez confessada falta de preparo para tudo quanto não seja a
miúda tarefa de rever, é homem de escrita lenta, sempre cuidando das
concordâncias, avaro na adjectivação, molesto na etimologia, pontual no ponto e
outros sinais,” (Saramago, 2003, p.140).
Quinto romance
de uma obra diversificada, História do
cerco de Lisboa é de l989, elaborado quando o autor encontra-se sobejamente
aparelhado para o ofício, em pleno domínio dos expedientes ficcionais, após
publicar títulos expressivos, como Levantado
do chão (1980), Memorial do convento
(1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984),
A jangada de pedra (1986).
SARAMAGO,
José. História do cerco de Lisboa. Rio
de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

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