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Luiz Henrique Silva de Oliveira apresenta notável contribuição teórica às investigações sobre literatura como expressão da alteridade, ao lançar Negrismo – percursos e configurações em romances brasileiros do século XX (1928-1984). O corpus recobre o período que vai da publicação de Macunaíma, de Mário de Andrade, à de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. O foco da pesquisa circunscreve-se às questões da afrodescendência focadas pela moderna ficção, de autoria de autores brancos, “uma voz autoral externa à afrodescendência”. Sem exclusividade, no entanto, uma vez que o trajeto palmilhado por Luiz Henrique Oliveira não atropela a poesia de temática negra, produzida no tempo áureo do Modernismo, sob a assinatura de Mário de Andrade (Poemas da negra), Jorge de Lima (Poemas negros) e Raul Bopp (Urucungo). A especificidade do enfoque poético acaba por enfatizar os atributos físicos das mulheres negras e a sensualidade, como elementos constitutivos de sua inserção na realidade nacional. O sistema de produção literária assumido inteiramente por negros na autoria – segundo o autor – só vingaria em fins dos anos 70, com os Cadernos negros (1978).
Luiz Henrique Silva de Oliveira apresenta notável contribuição teórica às investigações sobre literatura como expressão da alteridade, ao lançar Negrismo – percursos e configurações em romances brasileiros do século XX (1928-1984). O corpus recobre o período que vai da publicação de Macunaíma, de Mário de Andrade, à de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. O foco da pesquisa circunscreve-se às questões da afrodescendência focadas pela moderna ficção, de autoria de autores brancos, “uma voz autoral externa à afrodescendência”. Sem exclusividade, no entanto, uma vez que o trajeto palmilhado por Luiz Henrique Oliveira não atropela a poesia de temática negra, produzida no tempo áureo do Modernismo, sob a assinatura de Mário de Andrade (Poemas da negra), Jorge de Lima (Poemas negros) e Raul Bopp (Urucungo). A especificidade do enfoque poético acaba por enfatizar os atributos físicos das mulheres negras e a sensualidade, como elementos constitutivos de sua inserção na realidade nacional. O sistema de produção literária assumido inteiramente por negros na autoria – segundo o autor – só vingaria em fins dos anos 70, com os Cadernos negros (1978).
O
universo negro, representado na obra de poetas e ficcionistas, radica
fortemente em expedientes estéticos do Cubismo europeu e do movimento étnico
liderado por Nicolas Guillén e geração caribenha no início do século. A ênfase
maior recai sobre os autores brancos que exploram “temas e situações relativos ao
coletivo afrodescendente”, recortados em seus “suportes formais ocidentais, por
dentro e por fora do cânone, a partir de um ponto de vista simpático, mas
externo”.
O
aspecto original e que fundamenta a expansão da temática negra na literatura
brasileira, sob o rótulo de negrismo, ainda rasamente estudado, concorrente a
outros traços de nossa literatura, como o indianismo, impõe-se com o largo
espectro das obras analisadas. Operando os conceitos de carnavalização,
branqueamento e os nexos teóricos da metaficção, disseminados por Bakhtin e
Linda Hutcheon, Luiz Henrique Oliveira distende o arco da pesquisa em quatro
flancos. O percurso sério cômico do negrismo elege os romances Macunaíma, de Mário de Andrade, e Xica da Silva, de João Felício dos
Santos, como eixo do debate sobre as relações sociais e o poder, filtrados pelo
riso, como forma de amenizar o preconceito. O percurso historicista terá como
objeto as teorias do romance histórico formuladas por Lukács, examinadas
através do cotejo de A marcha, de
Afonso Schmidt, e de Os tambores de São
Luís, de Josué Montello. O terceiro percurso, rotulado de metaficção
historiográfica, analisa o romance A casa
da água, acabada e insuperável obra-prima de Antônio Olinto, lido como
representação da trajetória e contribuição dos afro-brasileiros retornados ao
espaço africano. O enfoque derradeiro atribui ao romance Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, uma ancoragem
convergente das tendências antes delineadas.
O
mito de democracia racial, de forte extração no discurso político, não passa
muitas vezes de lorota oportunista ou balela. Numa sociedade que mascara o
racismo, convive ambiguamente com o recrudescimento da imagem negativa da
população negra e a exaltação da diversidade, o mérito da pesquisa de Luiz
Henrique Oliveira não é pequeno.
OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de.
Negrismo – percursos e configurações
em romances brasileiros do século XX (1928-1984). Belo Horizonte: Mazza
Edições, 2014, 320 p.

Excelente artigo a respeito de uma boa pesquisa. Parabéns!
ResponderExcluirTerezinha, obrigado pelo retorno. Todo esforço dedicado à tentativa de compreender a nossa história merece nossa atenção.
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