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sábado, 4 de abril de 2015

Luiz Henrique Silva de Oliveira

      Livro do mês:

      Luiz Henrique Silva de Oliveira apresenta notável contribuição teórica às investigações sobre literatura como expressão da alteridade, ao lançar Negrismo – percursos e configurações em romances brasileiros do século XX (1928-1984). O corpus recobre o período que vai da publicação de Macunaíma, de Mário de Andrade, à de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. O foco da pesquisa circunscreve-se às questões da afrodescendência focadas pela moderna ficção, de autoria de autores brancos, “uma voz autoral externa à afrodescendência”. Sem exclusividade, no entanto, uma vez que o trajeto palmilhado por Luiz Henrique Oliveira não atropela a poesia de temática negra, produzida no tempo áureo do Modernismo, sob a assinatura de Mário de Andrade (Poemas da negra), Jorge de Lima (Poemas negros) e Raul Bopp (Urucungo). A especificidade do enfoque poético acaba por enfatizar os atributos físicos das mulheres negras e a sensualidade, como elementos constitutivos de sua inserção na realidade nacional. O sistema de produção literária assumido inteiramente por negros na autoria – segundo o autor – só vingaria em fins dos anos 70, com os Cadernos negros (1978).


            O universo negro, representado na obra de poetas e ficcionistas, radica fortemente em expedientes estéticos do Cubismo europeu e do movimento étnico liderado por Nicolas Guillén e geração caribenha no início do século. A ênfase maior recai sobre os autores brancos que exploram “temas e situações relativos ao coletivo afrodescendente”, recortados em seus “suportes formais ocidentais, por dentro e por fora do cânone, a partir de um ponto de vista simpático, mas externo”.
            O aspecto original e que fundamenta a expansão da temática negra na literatura brasileira, sob o rótulo de negrismo, ainda rasamente estudado, concorrente a outros traços de nossa literatura, como o indianismo, impõe-se com o largo espectro das obras analisadas. Operando os conceitos de carnavalização, branqueamento e os nexos teóricos da metaficção, disseminados por Bakhtin e Linda Hutcheon, Luiz Henrique Oliveira distende o arco da pesquisa em quatro flancos. O percurso sério cômico do negrismo elege os romances Macunaíma, de Mário de Andrade, e Xica da Silva, de João Felício dos Santos, como eixo do debate sobre as relações sociais e o poder, filtrados pelo riso, como forma de amenizar o preconceito. O percurso historicista terá como objeto as teorias do romance histórico formuladas por Lukács, examinadas através do cotejo de A marcha, de Afonso Schmidt, e de Os tambores de São Luís, de Josué Montello. O terceiro percurso, rotulado de metaficção historiográfica, analisa o romance A casa da água, acabada e insuperável obra-prima de Antônio Olinto, lido como representação da trajetória e contribuição dos afro-brasileiros retornados ao espaço africano. O enfoque derradeiro atribui ao romance Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, uma ancoragem convergente das tendências antes delineadas.
            O mito de democracia racial, de forte extração no discurso político, não passa muitas vezes de lorota oportunista ou balela. Numa sociedade que mascara o racismo, convive ambiguamente com o recrudescimento da imagem negativa da população negra e a exaltação da diversidade, o mérito da pesquisa de Luiz Henrique Oliveira não é pequeno.

OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de. Negrismo – percursos e configurações em romances brasileiros do século XX (1928-1984). Belo Horizonte: Mazza Edições, 2014, 320 p.


2 comentários:

  1. Excelente artigo a respeito de uma boa pesquisa. Parabéns!

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    1. Terezinha, obrigado pelo retorno. Todo esforço dedicado à tentativa de compreender a nossa história merece nossa atenção.

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