A recente sucessão de mortes no
arraial das letras e artes (os ficcionistas Günter Grass e Eduardo Galeano, o crítico literário Hélio Pólvora,
a crítica teatral Bárbara Heliodora, o cineasta Manoel de Oliveira) produz uma
inflexão sombria em muitos de nós, principalmente os que ultrapassaram o cabo
das tormentas, os detentores de mais de cinquenta anos. Cabe sempre ter em
conta que nenhum ofício, dentre os que se arrolam fora das raias do esporte,
deve ser exercido de forma competitiva. Derrota e vitória são expressões imprecisas
para configurar tentativas de mergulho transversal na realidade. Diante da
natureza fugaz e cambiante das coisas do mundo, porém, é difícil simplesmente
ignorar que o tempo passa e nós com ele. Somos afetados, queiramos ou não, pelo
consenso de clássica ascendência, referido em conhecido verso de Tomás Antônio
Gonzaga - “as glórias que vêm tarde, já vêm frias”. Seria conveniente observar que o poeta árcade refere-se, em primeira instância, à
experiência amorosa, como tentativa de desbloquear o meio de campo nas
investidas diante de Marília, a donzela esquiva de Ouro Preto. As glosas em
geral mutilam o original, que diz: “As glórias que vêm tarde, já vêm frias, e
pode enfim, mudar-se a nossa estrela”. No recesso de nossa autocrítica, padecemos
calados: produzimos isto e aquilo, poucos perceberam. E nos vemos estirados na
senda de um currículo por vezes salpicado de miudezas ou mediocridade. Vamos
por partes.
Oswald de
Andrade, após produzir obras importantíssimas, teria experimentado esse vazio
de reconhecimento, nos últimos anos de vida. A justa avaliação veio depois de
sua morte, como homenagem póstuma. A primeira constatação saudável
consiste em recolher as evidências com ânimo sereno. Muito reconhecimento, seja
em forma de prêmio ou condecoração, ocorre como coroamento de décadas de
trabalho. Nem sempre o reconhecimento se faz por merecimento efetivo, esta a
segunda assertiva a ser observada. O terceiro estágio seria buscar alento entre
os grandes, aqueles dignos de admiração e seguimento.
Sérgio Milliet (1898-1966) foi
pintor, intelectual cosmopolita, produziu obra notável no terreno da poesia, ficção e crítica. Mais
prestigiado como crítico, deixou um valioso legado nos dez volumes do seu Diário crítico. Na abertura do volume II, em “A título de prefácio”, afirma: “Estudei em colégio de padre
e fui jogado aos 14 anos na liberdade excessiva da Suíça dos lagos
transparentes e das montanhas azuis. Abusei convenientemente dessa liberdade,
estudei pouco e escrevi versos para arranjar pequenas. (...) Escrevi poemas que
ficaram sem eco e que eram bons”. Mais adiante, na sequência, após um rol de realizações, um tanto
ressentido, diz: “Literariamente aspiro apenas a um posto de reserva de
primeiro time. Não por modéstia mas porque os azes são demais”. Isto foi
escrito em 1944, quando a literatura brasileira vivia um contexto ímpar de prestígio social.
Não sou diferente de ninguém. Gosto de acompanhar a repercussão de meu trabalho. Comentários e juízos me envolvem, não possuo
couraça impermeável, de ferro. Gratifica-me uma referência a meu
trabalho, feita por Carlos Herculano Lopes, o romancista premiado de Sombras de julho, O último conhaque e O vestido. Quando publiquei Outono atordoado, o romancista mineiro,
em matéria alusiva ao lançamento, escreveu em jornal: “Pelos idos dos anos 70, quando o
conto mineiro, através de escritores como Murilo Rubião, Sérgio Sant’Anna,
Jaime Prado Gouvêa, Roberto Drumond e Júlio Borges Gomide, só para ficar
nesses, fez fama em todo o Brasil, um outro nome, o de Edgard Pereira, também
fazia eco”. E prossegue, mencionando prêmios nacionais da época. O
labor intelectual, seja em qualquer área – pesquisa, docência ou criação – só
faz sentido quando exercido como atividade produtiva, fonte de prazer e capaz
de acrescentar novos caminhos para os outros. Uma cultura (e a literatura está inserida) não se faz apenas com
grandes obras, cada tijolo tem seu papel no conjunto. Jogar no time reserva da seleção
principal ou fazer eco ao trabalho dos maiores está de bom tamanho porque os
ases são, continuam demais.
LOPES, Carlos Herculano. Estreia madura no romance. Estado de Minas. Belo Horizonte, 01/09/2001.
MILLIET, Sérgio. A título de prefácio. Diário crítico II. São Paulo: Martins, 1981.

Nenhum comentário:
Postar um comentário