Livro do mês
Mário/Vera Brasil, 1962/1964, romance de Tânia Jamardo Faillace (1939-), foi publicado em 1983, pela editora Marco Zero,
do Rio de Janeiro. A autora é uma escritora gaúcha, estreou em 1964, com a
novela Fuga (Porto Alegre, 1964), a
que se seguiram a novela Adão e Eva (Porto
Alegre, 1965), os contos de O 35º. ano de
Inês (Porto Alegre, 1977), de Vinde a
mim os pequeninos (1977) e de Tradição,
família e outras estórias (Ática, São Paulo, 1978). A relação de títulos atesta um trabalho persistente e uma progressiva aceitação no
mercado editorial brasileiro.
(Imagem: mercadolivre.com.br)
Estava-se nos
anos 70, quando se deu o boom editorial
que lançou inúmeros escritores, em sua maioria contistas. De várias regiões
brasileiras, em
especial Minas , Rio Grande do Sul e São Paulo. Dentre outros,
os mineiros Luis Vilela, surgido em fins dos anos 60, Ivan Ângelo, Roberto
Drummond, Elias José, Duílio Gomes, Sérgio Santana, Jaime Prado Gouvêa, Luciene
Samôr, Myriam Campello; os gaúchos Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João
Gilberto Noll, Sérgio Faraco; o paulista Ignácio de Loyola Brandão. Na altura, surgiram também notáveis escritoras no Rio Grande do
Sul, interessadas em discutir a condição feminina, com grande repercussão
regional e nos meios literários: Tânia Faillace, Ieda Inda, autora de um
refinado livro de contos (O arquiteto), Patrícia Bins e Lya Luft, que
conseguiu manter-se em evidência por mais tempo. Os fatores determinantes na
projeção de um nome ultrapassam a questão específica de mérito literário. Paulo
Coelho é um bom argumento, para mais de um enfoque. A riqueza de uma
literatura, porém, é bastante devedora de uma produção intensa e multifacetada.
A efervescência da literatura feminina dos anos 70 esfumou-se duas décadas depois. Em 1994,
Marilene Felinto, em artigo feroz na Folha
de São Paulo, decreta a decadência da literatura feita então por mulheres
no Brasil: “Como nós, mulheres, escrevemos mal! (...) Esgotou-se a espécie de
fórmula da ‘literatura feminina’. Será que ninguém percebeu? O universo
feminino é limitado, cheio de conflitos insignificantes, que nascem do umbigo
das mulheres e se encerram neles mesmos. É uma literatura umbilical, centrada
no corpo; quem aguenta mais descrições de orgasmos, menstruação e parto?
Trata-se de uma literatura sem transcendência (...).” Nos dias que correm,
observa-se uma revitalização na produção feminina, em várias frentes de atuação,
como, por exemplo, a introspeção psicológica (Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Tatiana
Salem Levy), a vertente política (Míriam Leitão), a denúncia social pelo viés
alegórico (Ana Paula Maia), a inquietação experimental (Carola Saavedra, Maria Esther Maciel).
O extenso
relato de Tânia Faillace, em torno de 500 páginas, reproduz em detalhes a
experiência de mulheres solteiras que vivem caso amoroso com homens casados.
Mulheres nem sempre indefesas, afinal buscam encontros clandestinos e se deixam
envolver por promessas, entregam-se sexualmente, sofrem discriminação,
preconceito, em troca de encontros fortuitos e espaçados. Na origem, quase
sempre uma atração genérica ou um atributo irresistível, seja a beleza,
virilidade, sedução, mistério. O que surge como namoro inconsequente acaba por
se transformar em paixão avassaladora, com direito a gravidez e outros lances. Por
força da convivência, ainda que esparsa, o desconhecido acaba por se tornar
próximo e participante, quando não ocorre algum incidente trágico. Tais relatos
são atraentes geralmente no início, uma vez que acabam enveredando por uma
rotina de encontros e desencontros, aproximações eufóricas e separações
turbulentas.
“Mário está
vivo. Poderia ter escorregado sobre as telhas, ou desaparecido sob a lama dos
morros, ou ido embora na enxurrada. Mas está ali. Vivo. Flancos mornos, úmidos,
entre suas coxas. Sexo no seu. Boca na sua. Não basta. Vera quer romper-se para
abrigar Mário dentro de si. Não ter nada fechado, guardado, secreto. Admiti-lo
nela. Cada vez mais profundamente. Angústia. Desejo obscuro, inarticulado, de
enxertar-se em Mário, tê-lo enxertado em si, uma mesma circulação, um mesmo
pulmão” (p.290).
Por se tratar
de um relato através da ótica feminina, incide quase sempre no estereótipo
focado por Marilene Felinto, “a espécie de fórmula” da escrita desse gênero. No caso da ficção de Tânia Faillace, com
provável carga autobiográfica, cabe destacar o distanciamento de um registro excessivamente literário, sem lucubrações intelectuais, incursões eruditas ou
filosóficas. Registra o fluir irrefreável e natural da realidade, de início com
uma certa idealização do parceiro. Este aspecto é por sinal referido na orelha de
Caio Fernando Abreu: “Este é um livro vivo. Não há, em nenhuma frase, nada de
‘literatura’, complexos efeitos estéticos, formas complicadas ou, enfim,
acessórios dispensáveis”.
O corte
temporal, inscrito no título (“Brasil, 1962/1964”), resulta em esboço ameno do
período recortado. São feitas breves, neutras referências ao contexto político,
anterior ao golpe militar, sem reflexos diretos nos conflitos narrados. Notas genéricas, fragmentadas, decisivas para moldar o contexto político e
social como pano de fundo. Em obras de fôlego, se o risco da monotonia
decorrente da reiteração de motivos e incidentes é uma possibilidade incontornável,
a insistência em obsessões subjetivas e a fragilidade de recursos narrativos
podem tornar a leitura enfadonha.
FAILLACE,
Tânia Jamardo. Mário/Vera Brasil,
1962/1964. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.

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