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sexta-feira, 6 de março de 2015

De aves noturnas, cabarés, dentifrícios


            A literatura é uma arte assimiladora, vai agregando motivos, cenas, atmosfera, cheiros, detalhes. Muitas vezes, quando lemos um livro, somos surpreendidos por semelhanças com outro, aparentemente diferente daquele que estamos lendo. Sem querer, percebemos fios intertextuais a aproximar dois ou mais textos. Referências usadas por um autor são retomadas mais tarde por outro, em novo contexto .



         Em Noite, de 1954, Érico Veríssimo, até então conhecido por narrativas épicas, sacode o público com a publicação de uma novela psicológica. O narrador acompanha a trajetória infame do Desconhecido (esse o nome do protagonista) dentro da noite escura e infecta, mergulhando em ambientes imundos, alcovas, cabarés, becos sórdidos, mal cheirosos, habitados por marginais e prostitutas. Junto com um comparsa, um corcunda misterioso, o Desconhecido caminha na zona boêmia da cidade. Os dois são chamados de “duas aves noturnas”, o protagonista destaca-se por uma elegância brega, “gravata grená, chapéu de feltro negro e sapato de duas cores. Na botoeira do jaquetão chamejava um cravo vermelho” (Veríssimo, 1995, 23).
            Assim como uma jogada de futebol lembra outra, uma canção suscita outra canção, também nos livros algumas semelhanças são recorrentes. A descrição de ambientes boêmios, via de regra, vem marcada por uso de estereótipos. Três décadas depois da novela de Veríssimo, Jaime Prado Gouvêa aborda o submundo da cidade grande, em alguns contos de Fichas de vitrola (1986).  Um deles traz como título, “A morte da ave noturna”. O narrador adentra por noites vagabundas, movimentadas por bêbados alucinados e pervertidos. As duas escritas aproximam-se na expressão do ambiente viscoso e viciado da noite urbana. Apenas nisso, os dois livros em nada mais se assemelham. Uma das aves noturnas do autor mineiro chama-se Colibri, o que usa um “lenço pontudo no bolso do paletó”.
            Perceber tais analogias constitui um dos fenômenos relacionados à leitura.

“As mulheres tinham as caras muito pintadas e algumas eram duma palidez cadavérica. De dentro de seus quartos, alumiados por lâmpadas veladas, vinha um cheiro de fogareiro de espírito-de-vinho misturado com a fragrância de pó de arroz e dentifrício”.  (Veríssimo, 1995, 35)

“Ao lado da cama, um rolo de papel higiênico. Ela volta do banheiro sem a peruca, os peitos murchos, o cheiro de dentifrício”. (Gouvêa, 1986, 28)

 GOUVÊA, Jaime Prado. Fichas de vitrola. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

VERÍSSIMO, Érico. Noite. 20ª. ed. São Paulo: Globo, 1995.



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