A
literatura é uma arte assimiladora, vai agregando motivos, cenas, atmosfera,
cheiros, detalhes. Muitas vezes, quando lemos um livro, somos surpreendidos por
semelhanças com outro, aparentemente diferente daquele que estamos lendo. Sem
querer, percebemos fios intertextuais a aproximar dois ou mais textos.
Referências usadas por um autor são retomadas mais tarde por outro, em novo contexto .
Em Noite, de 1954, Érico
Veríssimo, até então conhecido por narrativas épicas, sacode o público com a
publicação de uma novela psicológica. O narrador acompanha a trajetória infame
do Desconhecido (esse o nome do protagonista) dentro da noite escura e infecta,
mergulhando em ambientes imundos, alcovas, cabarés, becos sórdidos, mal
cheirosos, habitados por marginais e prostitutas. Junto com um comparsa, um
corcunda misterioso, o Desconhecido caminha na zona boêmia da cidade. Os dois
são chamados de “duas aves noturnas”, o protagonista destaca-se por uma elegância
brega, “gravata grená, chapéu de feltro negro e sapato de duas cores. Na
botoeira do jaquetão chamejava um cravo vermelho” (Veríssimo, 1995, 23).
Assim
como uma jogada de futebol lembra outra, uma canção suscita outra canção,
também nos livros algumas semelhanças são recorrentes. A descrição de ambientes
boêmios, via de regra, vem marcada por uso de estereótipos. Três décadas depois
da novela de Veríssimo, Jaime Prado Gouvêa aborda o submundo da cidade grande,
em alguns contos de Fichas de vitrola (1986).
Um deles traz como título, “A morte
da ave noturna”. O narrador adentra por noites vagabundas, movimentadas por
bêbados alucinados e pervertidos. As duas escritas aproximam-se na expressão do
ambiente viscoso e viciado da noite urbana. Apenas nisso, os dois livros
em nada mais se assemelham. Uma das aves
noturnas do autor mineiro chama-se Colibri, o que usa um “lenço pontudo no bolso
do paletó”.
Perceber
tais analogias constitui um dos fenômenos relacionados à leitura.
“As mulheres
tinham as caras muito pintadas e algumas eram duma palidez cadavérica. De
dentro de seus quartos, alumiados por lâmpadas veladas, vinha um cheiro de
fogareiro de espírito-de-vinho misturado com a fragrância de pó de arroz e
dentifrício”. (Veríssimo, 1995, 35)
“Ao lado da
cama, um rolo de papel higiênico. Ela volta do banheiro sem a peruca, os peitos
murchos, o cheiro de dentifrício”. (Gouvêa, 1986, 28)
VERÍSSIMO, Érico. Noite. 20ª. ed. São Paulo: Globo, 1995.

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