Total de visualizações de página

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Machado de Assis em quadrinhos

      Livro do mês:

      Em 1899 publicava Machado de Assis seu terceiro romance, Dom Casmurro. Mais de um século e uma década depois, Wellington Sberk e José Aguiar vertem para quadrinhos a obra de Machado.
      A versão de obras literárias consagradas para outros suportes, mais modernos e  com forte apelo comunicativo, torna-se uma prática usual, além de oportuna e produtiva. O risco de interferir numa obra excessivamente consumida e admirada mistura-se à responsabilidade de tornar pública uma interpretação da mesma. O que está em causa, mais do que atrair novos leitores, jovens em especial, é a intervenção em outro código e  a possibilidade de contribuir com mais uma interpretação, às tantas já produzidas. Acompanhar o desempenho do resultado alcançado pelos quadrinhos à leitura do produto original, este é um dos desafios ao leitor machadiano. Muitos são os fatores determinantes no entrelaçamento de códigos, tais como os meios de que se servem, os limites e alcance de cada linguagem. Se a narrativa dá conta de que o protagonista é um indivíduo casmurro, não basta, na versão em quadrinhos, desenhar um sujeito triste e carrancudo, a casmurrice no desenho alarga-se a outros recursos que atingem cenário, vestuário, gestos, etc.


     Em Dom Casmurro, Machado de Assis imprime à fabulação um deliberado enfoque visual. No primeiro parágrafo vem uma nota expressiva nesse sentido, quando o narrador refere-se ao encontro que tivera com um rapaz "no trem da Central",  conhecido "de vista e de chapéu". E seguem-se outras memoráveis referências que destacam a experiência do olhar: as inúmeras alusões aos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" de Capitu, reforçadas pelo símile famoso, "olhos de ressaca", com os quais ela parecia querer tragar o "nadador da manhã", no episódio do enterro de Escobar. Neste romance o autor construiu uma obra paradigmática, com a tinta da ambiguidade e as pinceladas do pessimismo e da ironia. O suposto adultério de Capitu tornou-se um motivo inesgotável de análise, jamais definitiva. Capitu traiu na verdade o marido Bento Santiago com o melhor amigo dele, Escobar? Para muitos, o delito teria se concretizado, e dele seria um argumento agudo o capítulo CXIII, "Embargos de Terceiros", com o relato do narrador de que, numa das poucas vezes em que fora sozinho ao teatro, teria encontrado o amigo no corredor de sua casa, ao retornar mais cedo, findo o primeiro ato. Para outros tantos, o delito não passa de um tormento do narrador, em razão de seu ciúme doentio. 
      A especificidade dos códigos, por sua vez, determina o acabamento do quadro. Quase impossível transpor todos os elementos do livro, notadamente as inúmeras digressões de caráter erudito. O grande mérito desta versão é a fidelidade à escrita machadiana, temos o próprio texto de Machado, acrescido de imagens. Eliminam-se apenas os dados desnecessários ao novo código. Vejamos. Escreve Machado no início do cap. III: "Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta". Na versão em quadrinhos, a frase vem transcrita, eliminando-se a última informação ("escondi-me atrás da porta"). O desenho supre a informação, obviamente. Não há como ignorar o velho adágio - uma imagem vale por mil palavras, ainda que me pareça um tanto exagerado.
      A parceria entre Machado de Assis e a dupla Sberk e José Elias revela-se bastante afinada e criativa. Vale a pena conferir.

SBERK, Wellington; AGUIAR, José. Dom Casmurro de Machado de Assis. Belo Horizonte: Nemo, 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário