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domingo, 4 de janeiro de 2015

Eduardo Gianetti

          Livro do mês:

          A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa, lançamento de 2010, compõe a produção de Eduardo Gianetti, prestes a ultrapassar uma dezena de títulos, alguns tributários de uma formação na área da economia (Vícios privados, benefícios públicos; O marcado das crenças; O valor do amanhã). O que singulariza o título em tela é o rótulo, romance brasileiro, redondamente deslocado.
            Leitores de ficção procuram obras nessa área; leitores de livros de ensaios, idem, buscam nas estantes títulos afinados com seu interesse. Esta premissa nem sempre funciona, como se observa no caso deste livro de Gianetti. Se a proposta era produzir obra de ficção, falhou no conceito e na prática. Ultrapassadas as primeiras vinte páginas, reveladoras das tensões inerentes ao problema pessoal do autor, no que tange à cirurgia para extirpar um tumor no cérebro, o livro toma frontalmente outro rumo. Ao enveredar pela descrição fisiológica do funcionamento e das funções do cérebro, o narrador vê-se alijado do processo da linguagem e estraçalha o pacto ficcional. Reaparece, vigoroso, o ensaísta, desta vez empenhado numa pesquisa pelos quadrantes da neurociência, a relação entre o cérebro e a mente humana.  Após breve incursão no universo fictício, de franca moldura autobiográfica, o alcance e os fundamentos científicos ficam evidentes.


            Até certa altura, ainda que pulverizado, o pacto romanesco mantém-se, por conta de notas disseminadas aqui e ali: “Poupemo-nos reciprocamente de excesso de zelo no relato dos pormenores e circunstâncias do grande divisor de águas da minha vida adulta. Careço do tino e da pertinácia, daquele amor ao detalhe e à minúcia reveladora, que é o segredo do narrador de ficção. Não vim contar minha vida – a quem poderia interessar? Reconheço o estreito do meu engenho e o banal do meu cotidiano insípido e livresco. A hipertrofia do intelecto fez de mim um anoréxico dos afetos e das pulsões vitais. Penso mais do que existo. Atenho-me, portanto, ao essencial” (p. 14).
            Neste livro de Gianetti, somos duplamente posicionados diante dos desdobramentos da relação cérebro/mente: no plano empírico (as diligências relacionadas à cirurgia) e no plano teórico (a exposição a atentas pesquisas sobre o assunto). Iludido pelo rótulo, sem intenção de render trocadilho com o título – A ilusão da alma – o leitor de ficção vê-se logrado após as digressões preliminares. O duplo logro completa-se com a altivez científica de tentar explicar o funcionamento da mente humana – proporcionando uma repousante confiança na ciência. O risco da postura neopositivista, restauradora de certezas, não consegue livrar-se de um viés arrogante e autoritário. Os dilemas existenciais de Sócrates, Anaxágoras e Platão retornam, remexidos, com vívida pitada de neurociência, temperada de citações de Montaigne, Plutarco, Santo Agostinho, Darwin, Machado de Assis, entre muitos outros. Tudo perpassado por súmulas científicas sobre cortes em amígdalas a ratos de laboratório e sua extensão aos seres humanos. Alguns argumentos restam obscuros para os não iniciados: “No embate de forças subjacentes às nossas escolhas, o sistema límbico e o córtex frontal são os principais vetores: os impulsos e desejos oriundos do primeiro gozam da prerrogativa de iniciar os lances da peleja, mas têm de abrir caminho e negociar passagem pelo crivo modulador do segundo; só assim serão capazes de empolgar o sistema motor e acionar os músculos relevantes” (p. 138).
            A despeito da interrelação dos gêneros literários e da exacerbação da liberdade nos tempos que correm, o rótulo de romance não se sustenta, além do atalho inicial. Apesar dos revezes estruturais, contudo, o livro não se perde de todo, salvo pelo estilo elegante e lúcidas tiradas.


GIANETTI, Eduardo. A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

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