Livro do mês:
A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa, lançamento de 2010,
compõe a produção de Eduardo Giannetti, prestes a ultrapassar uma dezena de títulos,
alguns tributários de uma formação na área da economia (Vícios privados, benefícios públicos; O marcado das crenças; O valor do
amanhã). O que singulariza o título em tela é o rótulo, romance brasileiro,
redondamente deslocado.
Leitores
de ficção procuram obras nessa área; leitores de livros de ensaios, idem,
buscam nas estantes títulos afinados com seu interesse. Esta premissa nem
sempre funciona, como se observa no caso deste livro de Giannetti. Se a proposta
era produzir obra de ficção, falhou no conceito e na prática. Ultrapassadas as
primeiras vinte páginas, reveladoras das tensões inerentes ao problema pessoal
do autor, no que tange à cirurgia para extirpar um tumor no cérebro, o livro
toma frontalmente outro rumo. Ao enveredar pela descrição fisiológica do
funcionamento e das funções do cérebro, o narrador vê-se alijado do processo da
linguagem e estraçalha o pacto ficcional. Reaparece, vigoroso, o ensaísta,
desta vez empenhado numa pesquisa pelos quadrantes da neurociência, a relação
entre o cérebro e a mente humana. Após
breve incursão no universo fictício, de franca moldura autobiográfica, o
alcance e os fundamentos científicos ficam evidentes.
Até
certa altura, ainda que pulverizado, o pacto romanesco mantém-se, por conta de
notas disseminadas aqui e ali: “Poupemo-nos reciprocamente de excesso de zelo
no relato dos pormenores e circunstâncias do grande divisor de águas da minha
vida adulta. Careço do tino e da pertinácia, daquele amor ao detalhe e à
minúcia reveladora, que é o segredo do narrador de ficção. Não vim contar minha
vida – a quem poderia interessar? Reconheço o estreito do meu engenho e o banal
do meu cotidiano insípido e livresco. A hipertrofia do intelecto fez de mim um
anoréxico dos afetos e das pulsões vitais. Penso mais do que existo. Atenho-me,
portanto, ao essencial” (p. 14).
Neste
livro de Giannetti, somos duplamente posicionados diante dos desdobramentos da
relação cérebro/mente: no plano empírico (as diligências relacionadas à
cirurgia) e no plano teórico (a exposição a atentas pesquisas sobre o assunto).
Iludido pelo rótulo, sem intenção de render trocadilho com o título – A ilusão da alma – o leitor de ficção
vê-se logrado após as digressões preliminares. O duplo logro completa-se com a
altivez científica de tentar explicar o funcionamento da mente humana –
proporcionando uma repousante confiança na ciência. O risco da postura
neopositivista, restauradora de certezas, não consegue livrar-se de um viés
arrogante e autoritário. Os dilemas existenciais de Sócrates, Anaxágoras e
Platão retornam, remexidos, com vívida pitada de neurociência, temperada de
citações de Montaigne, Plutarco, Santo Agostinho, Darwin, Machado de Assis,
entre muitos outros. Tudo perpassado por súmulas científicas sobre cortes em
amígdalas a ratos de laboratório e sua extensão aos seres humanos. Alguns
argumentos restam obscuros para os não iniciados: “No embate de forças
subjacentes às nossas escolhas, o sistema límbico e o córtex frontal são os
principais vetores: os impulsos e desejos oriundos do primeiro gozam da
prerrogativa de iniciar os lances da peleja, mas têm de abrir caminho e negociar
passagem pelo crivo modulador do segundo; só assim serão capazes de empolgar o
sistema motor e acionar os músculos relevantes” (p. 138).
A
despeito da interrelação dos gêneros literários e da exacerbação da liberdade nos tempos
que correm, o rótulo de romance não se sustenta, além do atalho inicial. Apesar
dos revezes estruturais, contudo, o livro não se perde de todo, salvo pelo
estilo elegante e lúcidas tiradas.
GIANNETTI, Eduardo. A
ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa. São Paulo: Companhia das letras,
2010.

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