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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

José Agostinho Baptista

     Livro do mês
       Nascido em Funchal, Madeira, em 1948, José Agostinho Baptista vai ainda jovem para Lisboa, estreia como poeta no final dos anos 70, mas só alcança visibilidade efetiva no princípio dos anos 80, com a coletânea O último romântico (1981). Publicou duas dezenas de livros de poesia, dentre os quais: Morrer no sul (1983), O centro do universo (1989), Canções da terra distante (1994), Agora e na hora da nossa morte (1998), Biografia (2000), Anjos Caídos (2003, Prêmio PEN de Poesia), Esta voz é quase o vento (2004, Grande Prêmio APE/CTT de Poesia), Quatro luas (2006), Filho pródigo (2008) e Caminharei pelo vale da sombra (2011), sobre o qual me detenho, na tentativa de um esboço. Tem desenvolvido em todos esses anos uma obra consistente e de reconhecida unidade, em sua quase totalidade caudatária de vertentes e expedientes próprios do Romantismo, com especial relevo ao estatuto da canção. O motivo da viagem, a projeção narcísica, a exaltação do feminino, o senso do mistério, a cisão interior/exterior, o retorno ao passado, a noturnidade, o apelo à natureza, um ou outro sinal esotérico, a melancolia finissecular formam uma constelação de recorrências e tópicos de extração neorromântica, presentes em estilos posteriores (Simbolismo e o Surrealismo) que se mostram bastante produtivos em sua poética.

Como em outros momentos, também neste Caminharei pelo vale das sombras, extenso e laborioso poema com mais de duzentas páginas, um sujeito mergulha por inteiro no passado, em versos longos, espraiados e emotivos, de ritmo intenso e vertiginoso:
Como procurar-te agora, na eternidade das cinzas,
entre as raízes que ainda sangram.
Como ver-te,
como ver-te, uma vez mais,
reencarnada em jovem noiva traída pelo mar, junto
às mulheres de luto  (p. 9).

O título, num livro em que a memória desempenha um papel importante, enuncia não uma atividade mental, contemplativa, mas um investimento numa instância deambulatória, nômade e dinâmica (caminharei), a ser cumprida num espaço obscuro, de esgarçada nitidez (vale da sombra). O suposto futuro revela-se uma fraude, visto que o objeto do investimento, a busca das origens, da dimensão futura apenas resguarda o tom de profecia, de que se reveste a amarga e desiludida voz poética: “Para quê forçar o cadeado,/ se os portões não se abrem?,/ se há um mistério sem fim em toda a matéria opaca./ E se encontrar a chave não encontrarei a verdade,/ pois esse é o destino que me aguarda:/ anotações,/ epitáfios, bolor, utensílios mortais,/ sobre um sarcófago” (p. 80). Sentindo-se dividido num tempo presente inóspito, pelo que representa de ruptura com uma experiência anterior, num plano temporal distante, o sujeito recolhe vestígios, resíduos de uma época idealizada, a que não são estranhas as ressonâncias bíblicas: “Contorces-te, quando me aproximo,/ e benditos sãos os frutos do teu ventre, no oásis onde/ amadurecem” (p.134).  Processo universal de recuperação do vivido, a memória presta-se, no caso, à partilha desesperada de um universo subjetivo, em que a figura materna, confluência do rol interminável de evocações, síntese maior de todas as perdas, delineia-se como eixo do conhecimento primordial do mundo:
 Minha mãe,
é contigo que falo,
depois de ponderadas as distâncias que vão de um
berço a uma lápide,
depois de ouvir os pássaros,
chamando por mim,
                                             (p. 10).


BAPTISTA, José Agostinho. Caminharei pelo vale das sombras. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.
          

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