Lava de espera.
Em Lava de espera, Fátima
Maldonado, poeta portuguesa revelada nos anos 80, reconhecida pela densidade de
uma produção marcada por uma dicção visceral, empreende um mergulho poético e
seletivo na cultura dos Açores. Diante de um portal em ruínas, a última frase
de “A lagoa do Caiado”, um dos capítulos do livro, tem uma aura profética: “Mas
sente-se que atravessá-la seria início, conhecimento ou pacto”. Estas reações
prestam-se também para caracterizar o legado da leitura deste livro. O gênero?
À exceção de três poemas, os dez textos restantes podem ser rotulados de crônica,
evocação poética ou literatura de viagem. Cada um escolha o que melhor lhe
aprouver. Os atributos de que se valem envolvem o suporte da pesquisa, a
linguagem refinada, o apuro estilístico, a escolha cuidadosa de termos (com
acento no léxico regional), todo um sortilégio de babugem de lendas, repertório
folclórico e de mistérios. Versam sobre o passado das ilhas, descrevem aldeias,
largos, igrejas seculares, festas, bandas de música, imagens de santos e
figuras lendárias. Para o senso comum, lugar vigiado por vulcão e onde medram
árvores de incenso parece imensa e sinistra campa de náufragos, antessala do
Purgatório.
As aventuras associadas aos antigos caçadores de baleia, com seu rol de
perigos e lances heroicos, as erupções vulcânicas ao longo da história, os
contratempos ligados à imigração, a herança dos primeiros colonizadores, as
tradições de arte e gastronomia, as festas folclóricas formam a base da matéria
tratada de forma peculiar e emotiva. A primeira referência evoca as “cúpulas da
igreja virada a oceano”, reiterada no início do segundo texto: “Habituei-me a
isto: dirijo-me primeiro à igreja, depois logo se vê”, privilegiando a
atmosfera religiosa da imersão aos lugares e costumes ilhéus. Mais à frente, o
motivo retorna: “Não resisto a espreitar a igreja, é quase um vício entrar
nestes cubos de silêncio” (p.33). O tratamento literário à caça da baleia tem
ilustre ascendência, radica em nomes da estatura de Hermann Melville (Moby Dick) e Vitorino Nemésio (Mau
tempo no canal), renomados cultores da linguagem e do estilo, sem ruptura de
qualidade na produção de Fátima Maldonado.
A mistura do passado com os novos
ares do presente é repassada de uma nota melancólica, de quem se dá conta da
onda devastadora que acompanha os processos ditos civilizatórios: “A caça da
baleia fechou em 1987, a
miséria foi-se extinguindo com o dinheiro emigrado e a mudança para a pesca do
atum, a albacora. O Pico é uma reserva, recolhem-se preciosos vestígios de uma
civilização a esfumar-se” (p.15).
Na evocação, o confronto presente/passado assume dimensão por vezes
etnográfica, nem por isso menos cruel, diante da crescente invasão de
mediocridade tecnológica: “As Bandas são ecos da antiga cultura, a televisão
não oprimia ainda, aberta a despropósito em tudo que é farmácia, cozinha ou
supermercado, agora até massacram nas salas de espera dos dentistas” (p.18). Pequenos detalhes difusos flagram um olhar
desejoso de compreender a dinâmica movimentação dos açorianos pelo América, “os
ridículos fatos cheios de anúncios”, “os bonés americanos na cabeça”,
“adolescentes de t-shirt que se riem
nos intervalos”, “condutores com boné dos States”. Outra faceta da cultura
açoriana, mais de uma vez referida, seriam as sandálias de couro, de origem
romana, artesanais, ainda hoje em uso nas ilhas – as albarcas. Misto de
primitivismo (as sandálias romanas) e disponibilidade à padronização moderna
(os bonés americanos), a cultura açoriana sobrevive bravamente e como pode à
fatalidade geográfica, entre a preservação de vestígios artesanais e a
assimilação do excedente industrial, transplantado da América.

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