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domingo, 4 de maio de 2014

Notas de viagem: Portugal

      Para qualquer brasileiro, conhecer Portugal representa a possibilidade de se deparar com as imemoriais raízes do passado de seu país. Apesar das idiossincrasias que marcam as duas culturas, a especificidade da contingência, não há como ignorar as amarras profundas que perpassam o percurso dos dois países. A consciência desse laço para muitos ultrapassa o mero legado comum e se converte em herança sanguínea e visceral (os Coelho, Castro, Nunes, Magalhães, Albuquerque, Silva, Pereira, Cabral, Costa, Nogueira, Passos, Barreto, Barreira, entre tantos outros). São por demais fundas as ressonâncias,  as marcas indeléveis de descendência e estirpe.

                         
                                    (Lisboa: Casa de Fernando Pessoa)

       Depois de dezesseis dias em Portugal, com a família, alinho alguns comentários apressados e soltos. Diferente da primeira vez em que visitei Portugal, há dezoito anos, desta vez encontrei o país plenamente integrado ao mercado comum europeu, com a habitual pujança turística, maiores sinais de cosmopolitismo e - o que nem sempre é positivo - exacerbada atmosfera capitalista. Enfim, as demandas andam estreitamente ligadas e as coisas têm sempre vários aspectos, para a exata compreensão.

                       
                                        Lisboa: Mosteiro dos Jerônimos.

      Portugal convive com o turismo, uma de suas maiores fontes de renda, de forma profissional e responsável. Cobra pela visitação a monumentos e museus, como meio de subsidiar a manutenção dos lugares de culto.  Seus edifícios remontam a épocas remotas, é comum a gente se deparar com placas indicando uma data muito antiga, como o bar e restaurante Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa nas primeiras décadas do século XX, na Praça do Comércio, em Lisboa (fundado em 1782, em pleno funcionamento). Certos monumentos são verdadeiros prodígios de arquitetura e concepção artística, reconhecidos mundialmente. Nem visitei todos - seriam necessários alguns meses - mas penso no Mosteiro dos Jerônimos, o Convento da Batalha, o Palácio da Pena no topo de uma montanha em Sintra, o Teatro d. Maria II, o Castelo de São Jorge, o Palácio da Bolsa no Porto, para enumerar os mais conhecidos. Além da opulência artística, transmitem a dignidade e a solenidade outorgadas pelo tempo.

                                   
                                      Lisboa: Corredor interno do Mosteiro dos Jerônimos

      Alguns castelos remontam a épocas mais antigas, indiciam traços do século 12. As imponentes estátuas de reis e príncipes equestres multiplicam-se nas praças, surpreendem e encantam. A noção de tempo delineia-se fortemente contaminada pelo peso do passado grandioso.

                            
                                         Sintra: Palácio da Pena

      Hospedamo-nos, em Lisboa, em hotel situado próximo à Praça Marquês de Pombal, cujo nome é pronunciado de peito estufado pelos portugueses. Trata-se de uma das mais famosas da cidade, com metrô subterrâneo de início do século dezenove e enorme rotatória (ou "rotunda", como eles dizem). Assistimos de perto (o caçula e eu) à monumental comemoração da conquista do campeonato português pelo clube do Benfica, (onde joga o nosso conhecido Luisão, ex jogador do Cruzeiro). Até a estátua do famigerado Marquês recebeu a camisola encarnada da equipe; calcula-se que mais de cinquenta mil adeptos (como eles nomeiam os torcedores) participaram da festa. Na manhã seguinte a praça estava limpa, lavada a estátua, como se nada houvesse acontecido, sem vestígio algum da multidão ali presente na noite anterior. Por mais que os portugueses reclamem das medidas de austeridade adotadas pelo governo, (exigidas pela "troika"), nada pode ser dito que lhes desmereça a competência e determinação demonstradas na gestão do patrimônio público. Percebe-se a atuação de pessoas que trabalham de forma séria e compromissada.

                              
                                              Sintra: Palácio da Pena

      Um dos aspectos mais evidentes no cotidiano luso constitui a sensação de segurança. Não apenas a paisagem exterior (física, arquitetônica) impressiona, o elemento humano conta e muito na percepção global. E aqui incluímos o conceito amplo de cultura, como conjunto de valores, atitudes, gestos, serviços, costumes e hábitos. Como um funcionário avisá-lo que sua bolsa está meio aberta, ou um desconhecido lhe devolver algum objeto que porventura caiu de seu bolso. Em síntese tosca, os principais traços da sociedade portuguesa podem ser alistados: a harmonia entre passado heroico e o presente, reconhecimento da importância da cultura, eficiência do sistema de transporte público, segurança pública, respeito à dignidade das pessoas, eficiência dos aparatos de estado (polícia, serviços), limpeza urbana.

                             
                                         Lisboa: Cais das Colunas

      PS.Termino aqui. Mas antes, não consigo reprimir uma breve comparação com o nosso país. No Brasil o que se vê é uma classe política ávida em manter seus privilégios e garantias (os 20 mil empregos de altos salários, o loteamento das empresas públicas), sequiosa em dilapidar o patrimônio coletivo.

                                     
                                       Lisboa: Praça do Pombal, comemoração do Benfica

     Retornar ao Brasil, retomar a rotina dos dias e trabalhos deveria ser, de imediato, o coroamento de um prazer demoradamente acalentado. Isto não acontece, infelizmente, dadas as grosseiras lacunas estruturais da administração pública, entregue a grupos desprovidos de competência e senso ético. Um exemplo. Após 9 horas e meia de voo, os passageiros são obrigados a aguardar por mais uma hora e meia para a realização de comezinho desembarque e vistoria de alfândega. Em Lisboa, os mesmos serviços não duram mais que quinze minutos. Só então nos damos conta de que, enfim, chegamos a um país onde impera a incompetência e ineficiência. 

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