O escritor e artista
plástico José Luís Mora Fuentes (1951-2009), nascido em
Valência, Espanha, desde pequeno radicado em São Paulo,
ganhou em 1972 o Prêmio Estímulo Governador do Estado,
com três contos, depois incluídos no livro O cordeiro
da casa (1975). Íntimo de
Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, com os quais conviveu na Casa do
Sol, sítio nos arredores Campinas, numa lendária
comunidade de escritores e artistas, por volta dos anos de 1970 em diante. Após
a morte de Hilst (2004), de quem ilustrou a capa de vários
livros, numa convivência de mais de trinta anos, fundou e
presidiu o Instituto Hilda Hilst, centro de referência em
estudos sobre a enigmática e polêmica autora paulista.
O cordeiro da casa integrou a prestigiosa coleção
Jogral, dirigida por Nelly Novaes Coelho, responsável pelo
lançamento de obras de autores da envergadura de Rui Mourão,
Stella Carr, Hermilo Borba Filho e Murilo Rubião. O livro reúne doze
ficções, de formato intimista, aparentemente leves,
tocadas por intensa vertigem poética, ampliada pela inquieta
hesitação que as amarra, hesitantes entre o gosto de
revelar e esconder descobertas, céticas em relação
à ingênua postura encantada diante da existência.
“Desde sempre eu soube, desde sempre tive medo da hora em que,
trocando os ares inocentes e incorruptos da infância, eu
adquiriria a minha verdadeira face de lobo” (p. 17). O autor
consegue apreender as contradições e ambiguidades do
contexto dos anos de 1970, flagrado como “minhas monocórdicas
e insistentes ladainhas da memória” (p.131), ou reflexões
decorrentes de uma concepção dinâmica e
desencantada das coisas: “Eu descobri há tempo que tudo é
assim, fazendo e se desfazendo. Me preparei para nunca mais ver a
água no olho-luz, me preparei e tentei esquecer a música,
o movimento, porque nossos encontros sempre tinham sido música
e movimento. É incrível como a paixão pode ser
luz e fogo. Não se sabe como, mas a magia se faz presente,
rica, um universo inteiro que espera teu comando. Ou pensamos assim
quando na realidade somos conduzidos. Não importa. Nada
importa desde que tudo se faça, desde que encontres o
escondido. A mulher. E pensar que um dia tudo isso se fez. E agora
não importa mais.” (p.127-128)
Personagens
e situações interpenetram-se nos diversos relatos,
centrados numa subjetividade dilacerada e perplexa diante do
desaparecimento de valores espirituais, perversamente alijados do
mundo contemporâneo. Contesta estruturas narrativas, rebela-se
contra a estratificação de mentiras e enganos, sem a
dureza de vetores realistas, configurando até certo ponto um
libelo contra a tirania racionalista, pela sua incapacidade de lidar
com os conflitos afetivos. “Nunca amei a mulher. Amei nós
dois e o que estava em nós quando nos encontrávamos à
noite. E a perfeição tinha que existir. Isto sim. Um
movimento no lábio, uma luz no mais fundo da pupila, um uivo
na hora do gozo” (p.37). Mora Fuentes constrói uma escrita
densa, habitada por assombros e traumas, atravessada por inúmeras
neuroses do nosso tempo (a solidão, o desencontro, a
impossibilidade das relações, o vazio urbano). Sua
incursão nos meandros da memória não se intimida
diante da ambígua tarefa de se recompor através da
paciente composição de objetos e incidentes
insignificantes (a rotina das formigas, a coleção de
ninharias, a obsessão do passado, a observação
de insetos).
Mais
do que um mosaico de adereços e queixumes da memória, o
arcabouço literário lança raízes numa
tradição devotada a contribuir para a terrível
ideia de que preparar-se para o fim constitui a mais saudável
forma de reconciliar-se com a vida, bem maravilhoso em sua gratuita
efemeridade. Nem que seja investindo um desmedido esforço em
compreender (até onde é possível) o contorno
exato do “quase nada” da existência de todos os dias.
FUENTES,
Mora. O cordeiro da casa. São Paulo: Quíron,
1975.

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