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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mário Garcia de Paiva

Livro do mês:

      A literatura distingue-se de outras artes, por sua própria natureza; lida com palavras (patrimônio coletivo), mas lida também com a vivência humana: expressa emoção, descreve comportamentos e ações. Ao representar a condição humana, dilata sua importância excepcionalmente. O objetivo de registrar a aventura humana no planeta, em determinado contexto, bastaria para torná-la uma atividade de inestimável lastro histórico.
      Alguns escritores ultrapassam a média de seus pares, quando avaliados sob uma lupa distanciada. Mário Garcia de Paiva (1920) é um deles. Surgido na década de 60, despertou o interesse da crítica ao conquistar em 1970 o grande prêmio em concurso nacional de contos do Paraná. O conto "Parábola", um dos premiados, tornou-se cult, pela refinada elaboração de um evento tangido para se repetir indefinidamente . Antes disso, no entanto, já se revelara um ficcionista de sofisticados recursos, em romances de sondagem psicológica, como  Um minuto na adolescência (1947), Luana (1962) Ontem (1966), Esse menino, Francisco (publicado em 1971, apesar de pronto desde 1965); reeditado mais tarde duas vezes.  Publicou depois três livros de contos marcantes: Festa (1970), Dois cavalos num fuscazul  (1976), Os agricultores arrancam paralelepípedos; e um livro instigante, meio "science-fiction" e atmosfera gótica, Os planelúpedes (1975), com personagens híbridos, numa estranha dimensão, metade animais, metade seres humanos, exauridos e tensos em sua atribulada existência.


     Os últimos livros assinalam uma radical evolução, na obra de Garcia de Paiva, atravessada agora por uma concepção arejada e crítica de literatura. Destaco  em especial o título Dois cavalos num fuscazul. "Pantomima" recria um ambiente especular de violência, desta vez com participação do enunciador. O sentido social, para o qual se abre sua ficção, se não é novidade, alia-se a uma vigorosa pesquisa formal, expressiva de um rumo novo, um compromisso responsável que passa a incorporar a denúncia.  Reinventa a proposta, atribuía a Maiakóvski, de que só existe arte revolucionária quando a forma é revolucionária. A linguagem deixa de ser o veículo, o meio de fixar um quadro, para se tornar um suporte significante de ousado projeto ficcional, ajustado para captar a errância, a desumanização e o desmoronamento de valores universais. Através de inovações linguísticas que provocam estranhamento, pelo que representam de ruptura em relação ao código tradicional, as cenas descritas (ou expostas, se damos ênfase aos expedientes cinematográficos) denunciam a dolorosa condição em que os humanos se viram lançados. Algumas palavras mostram-se desvirtuadas em sua grafia, mutiladas e fragmentadas, carregadas de sentido:


"Iam caminhando e conversaram entre si no silêncio, de máscara a máscara. Tinham alguma coisa de cavalos-marinhos.
      (...)
      Passaram por um omem caído na calçada.
      "É o quinto em quinze minutos".
      "Falou alguma coisa, você ouviu ?"
      "Ouvi, lonje e muito débil. Ele pede também, como os outros. Vou socorrer este"
      Aproximou-se do omem caído e atarraxou na máscara dele um tubo do seu depósito de oxijênio: logo se reanimou, moendo os braços". ("Gaivotas")

 "Dois cavalos atravessaram a praça e entraram um fuscazul.
     (...)
      O cavalo magro bateu no casco um cigarro por acender,
      Não gosto de ver cadáver-
      Esta é a oitava que eu revelo e ainda não me acostumei. Será que chamam as crianças de fotos porque são fotografadas ? -"  ("Dois cavalos num fuscazul")

      As cenas realistas, contundentes, vazadas numa forma insólita, flagram situações violentas, desumanas, chocantes, para as quais a linguagem convencional mostra-se precária e impotente.

PAIVA, Garcia de. dois cavalos num fuscazul. Ilustrações e capa de Weis. Belo Horizonte: Comunicação, 1976.


3 comentários:

  1. como consigo o contato do escritor garcia de paiva ?

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  2. EU TAMBÉM JÁ PROCUREI E FUI ENCONTRAR, APENAS ESSA NOTA CRÍTICA. O MÁRIO GARCIA, ONDE ANDARÁ? SE VIVO ESTIVER, ESTÁ COM 95. É POSSÍVEL, POR QUE NÃO?
    EDGARD PEREIRA (que não é dos Reis, como declara), NÃO ESQUECI DOS LIVROS QUE SE ENCONTRAM À SUA DISPOSIÇÃO. VAMOS DAR UM JEITO AQUI DE MANDÁ-LOS. PARABÉNS PELA PÁGINA. SOU LEITOR E SEGUIDOR

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  3. Mário Garcia de Paiva (meu avô) faleceu em 15 de agosto de 2012, em Belo Horizonte aos 92 anos, de morte natural. Deixou esposa, filhos, netos, extensa obra literária e muita saudade.

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