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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Myriam Campello

   
Livro do mês: Jogo de damas

      A autora não é desconhecida, surgiu na década de 1970, numa geração destemida e obstinada, venceu certames importantes, como o Prêmio Fernando Chináglia, atribuído ao romance de estreia, Cerimônia da noite (1972). Nascida no Rio de Janeiro em 1940, firmou-se como ficcionista de talento, tendo publicado outros romances - Sortilegiu (1981)  São Sebastião blues (1983), Como esquecer (2003), este transformado em filme, - e um livro de contos, Sons e outros frutos (1988).


      Jogo de damas é um romance policial de maturidade, de refinado acabamento, no qual inexistem experiências desordenadas ou caóticas. A passagem do tempo é marcada por meio de uma data, afixada no início dos capítulos. Três núcleos narrativos, correspondentes ao comportamento de três mulheres, interseccionam-se. Num ritmo nervoso, o suspense é trabalhado a cada página, através de imagens duras e impactantes, capazes de arrepiar, criando uma atmosfera de contínua expectativa e terror. Detalhes ameaçadores povoam os relatos, tais como: "...o frio desabando como um machado" (p.19); "uma saraivada de gritos de Mercedes sacudiu os alicerces da casa" (p.103); "...as marretadas do tempo" (p.87);  "uma aranha venenosa" (p.89); "dormia como um martelo" (143). Após a filha de quatro anos ser estraçalhada por um pit-bull, a protagonista norteia seus dias pelo compasso da vingança. As imagens reforçam e ampliam a exasperação, de mistura a um mórbido desfile de mau agouro e presságios. Transtornada pela revolta, uma personagem envereda por trilhas inesperadas e insidiosas, a ponto de amortecer a consciência crítica. Em consonância com as sugestões do título, sem que se perceba, os riscos vão se ajuntando à trama, numa sequência extenuante de fracassos e supostas conquistas. A ambiguidade das ações e o abismo da armadilha revelam-se ao final de forma brusca e trágica. Duca, um agente policial, ex-alcoólatra e viciado em castanha, retoma as rédeas da operação, quando tudo prevê o contrário. A construção do suspense, neste caso, não resulta de peripécias eletrizantes, mas de lances sóbrios e milimetricamente avaliados. 



      Os lances sucedem-se com tal intensidade no interior da protagonista que o leitor aposta em sua capacidade de, no momento certo, aplicar a jogada de mestre, o xeque-mate. Quem será ludibriado? De onde virá a tacada decisiva? Mais nada deve ser dito, sob pena de interferir no elemento surpresa. A autora inscreve-se, em grande estilo, na tradição do melhor romance policial brasileiro, que se enriquece com a sutileza de uma mirada feminina. Papel de qualidade, bem produzida e de bom gosto, a edição.

CAMPELLO, Myriam. O jogo de damas. Rio de Janeiro: Língua geral, 2010.

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