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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ivana Arruda Leite

       Participei do Sempre um papo com a escritora paulista Ivana Arruda Leite, no último dia 30, no teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, aqui em Belo Horizonte. Isso raramente acontece. Não o evento, agora no âmbito do projeto Nova literatura brasileira. Eu sair de casa. Bastante comunicativa e simpática, a autora explicou muitas situações ligadas à construção do romance Alameda Santos (Iluminuras, 2009). O local é acolhedor, com isolamento acústico, excelente iluminação, favorece o intimismo. Pequeno, mas atento, o público interagiu com a autora, que trouxe à tona experiências de seu trabalho literário e breves notícias da cena literária paulista. Nascida em 1951, revelada no bojo da geração noventa, publicou três livros de contos e dois romances; o outro é Hotel novo mundo. 




      Estou lendo Alameda Santos, livro composto a partir de fitas gravadas por uma mulher balzaqueana, após a separação do marido e se embebedar, entre o Natal e o ano Novo de 1984. O mesmo se repete ao fim de outros anos, até 1992. E tome falação feminina, no registro mais coloquial e fonético possível. Os anos loucos em São Paulo da década de 80 são retratados sem retoques sob a ótica de uma dublê de escritora liberal e dona de casa abandonada pelo marido. Confidências de alcova misturam-se a relatos de agitos, amizades gays, traições amorosas, pirações, bebedeiras, boemia, drogas, experiências esotéricas e o escambau. Duas amostras do estilo da narradora, a seguir.



         "Hoje é dia 28 de dezembro de 1986, domingo, 2 e meia da tarde. Eu tô tomando café no sofá da minha casa e gravando essa fita depois de comer uma deliciosa picanha com fritas no Bar das Putas. Finalmente eu tô numa casa só minha com plantas, panelas, frutas, verduras. Ambiente totalmente familiar. Eu e a Gabi voltamos a morar sozinhas". (p. 51)



      "Tinha noite que o Charles me enchia tanto o saco que eu pegava o carro e saía rodando pela cidade pra esfriar a cabeça. Uma vez eu parei no Largo do Arouche, entrei num bar, pedi uma cerveja e só então eu me dei conta de onde eu tava, às três da manhã: num lugar que só tinha puta e marginal. Eu comecei a rir. E o mais engraçado é que não senti um pingo de medo. Pelo contrário, me senti superbem e segura entre aquelas pessoas. Parecia que eu tinha vindo de um lugar muito pior do que aquele". (p.81)



      O livro é divertido, com relatos um tanto desbocados e malucos. A orelha adverte, certeira: "Suas mulheres são patéticas, ridículas, carentes, solitárias mas sem um pingo de autopiedade. Sabem rir de si próprias, perdoarem-se e seguir em frente". Por trás dos dramas individuais, descortina-se o mundo grande do país lutando para se livrar da ditadura, enterrar Tancredo e mergulhar de cabeça no período difícil da era Sarney.

LEITE, Ivana Arruda. Alameda Santos. São Paulo: Iluminuras, 2009.
(As fotos foram tiradas pelo amigo Júlio.)


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