No início dos anos 1980, das vezes em que fui à sede do Suplemento
literário do Minas Gerais, no prédio
da Imprensa Oficial, Avenida Augusto de Lima, em Belo Horizonte , em
algumas delas percebi a presença discreta de Murilo Rubião (1916-1991) noutra sala, compenetrado
em sua mesa de trabalho. Era um homem alto, calvo, olhos vivos atrás de óculos
de aro escuro, bigode aparado, mantinha sempre a elegância de um aristocrata, vestido
a rigor, em terno e gravata. Na sua aparência de homem resoluto e erudito,
vagava um ar cerimonioso e um temperamento grave. Circulava por vezes na sala
da redação, onde era alvo de deferência e admirado por todos, uma legenda, não apenas pela importância de seus contos, mas por ter convivido com Juscelino e ter sido amigo de Mário de Andrade. Não seria inexato
afirmar que nossa relação era oblíqua, ele sabia que eu frequentava o jornal. Habituei-me a vê-lo ocupado em tarefas difusas ou atendendo a
escritores vindos de diversas regiões do estado, do país e do exterior. Em face
do respeito que lhe devotava, um dos maiores escritores mineiros, de renome
internacional, não me aventurava a aproximar-me,
para um contato direto, observando o costume mineiro de não importunar ou
ocupar-lhe o tempo com futilidade. Só o fazia quando necessário. Como sabia que ele era natural de Carmo de
Minas, cidade situada no sul de Minas próxima de Jesuânia, minha terra natal,
acalentava o desejo de um dia abordá-lo, para conversar.
(Na foto, pertencente ao Acervo de escritores mineiros, da UFMG, da esquerda para a direita, o escritor Murilo Rubião e o presidente Juscelino Kubitscheck)
Lembro-me de me deparar ali com Murilo Mendes,
Emílio Moura, Ildeu Brandão, Francisco Iglésias, Rui Mourão, Luís Vilela, Sérgio Santana, Affonso
Ávila, Laís Correa de Araújo, Roberto Drumond, Wander Piroli. Por lá passaram
também Ana Hatherly, Tzvetan Todorov, Curt Lange, Roman Jakobson, Clarice
Lispector, entre outros. Dentre os mais jovens, contavam-se Libério Neves, Adão
Ventura, Márcio Sampaio, Carlos Roberto Pelegrini, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Humberto
Werneck, funcionários da redação em épocas variadas, escolhidos a
dedo. Murilo Rubião fundou o Suplemento literário em fins dos anos 1960,
o local era o prolongamento de sua casa: dava mostras de sentir gosto em
conviver com os jovens escritores e ilustradores. Eu lecionava em
cursos pré-vestibulares, tinha publicado em 1971 resenhas no Suplemento literário do Estadão, ainda não fizera concurso para
a UFMG, o que iria ocorrer em 1982. Colaborava no jornal com alguma ficção e
resenhas, algumas encomendadas. A
colaboração rendia um pro-labore nada desprezível, como incentivo para o
trabalho das letras.
Murilo Rubião era um escritor reconhecido
internacionalmente, objeto de homenagens e artigos escritos por intelectuais do
porte de Álvaro Lins, Fausto Cunha, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Fábio
Lucas e Jorge Schwartz. Os livros principais estavam publicados. O renome como autor fantástico ultrapassava fronteiras
nacionais, corria mundo. Todos sabiam de suas relações com Cortazar, os irmãos
Campos, Décio Pignatari, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Boris
Schnaiderman. Era um nome definitivamente canônico. Quando foi indicado no
vestibular da PUC o livro O Pirotécnico Zacarias, os professores de
literatura do Colégio Pitágoras Pitágoras fizemos-lhe uma visita. Acolheu-nos atencioso em seu
apartamento e foi no meu livro que ele assinalou algumas passagens da nota
biográfica e deu autógrafo, nomeando todos os presentes: Para Graça, Wilma,
Edgard, Marly, Paulo, Hélio, Delson, Ângela e Lucy.
Além da literatura, o local de origem também nos aproximava. Uma única vez o procurei, para conversar sobre o
sul de Minas, certo de que o assunto fosse de seu agrado. Não era, mencionou
vagamente uns parentes feiosos, de olhos arregalados, referiu-se por alto à
cidade de São Lourenço e o papo não prosperou. Devo-lhe o empenho na publicação de um conto ousado, “Hoje é noite de rock”, no Suplemento literário MG.
Segundo me confidenciou um membro do conselho editorial, o poeta Pascoal Motta,
o conto só foi publicado porque Murilo Rubião foi-lhe favorável. Os outros
avaliadores teriam votado contra, tendo em vista a ambiguidade sexual explorada na trama.

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