Livro do mês:
Como é sabido, Gastão Cruz fez parte de poesia
Com As pedras negras, estamos diante de uma poética extremamente
sofisticada e contida, em que a perturbadora obscuridade se torna um constante
desafio. Não temo afirmar ser este um dos mais belos livros de poesia que li
nos últimos vinte anos. A brevidade dos poemas, a simplicidade dos títulos, em
muitos casos retomando o diálogo cultural, não conseguem camuflar um sentido
cada vez mais fugidio e disperso.
Práticas poéticas como esta elegem seus leitores preferenciais – aqueles
que a elas se entregam na perspectiva consciente de um entendimento facultado
ao fim de um longo processo de concentração: “a idade lerá/ sobre um longo
silêncio a palavra” (p.17). Uma visão de conjunto perceberá uma vasta
constelação de motivos ou núcleos (embora não haja subdivisões explícitas) que
se repetem de três a cinco vezes, de forma alternada e intensa: a série da
cidade, geradora de amplas irradiações, inicia-se no segundo poema, de forma
quase programática: “Ah, o olhar viaja/ nessas câmaras frágeis/ que interrogam
o brilho das cidades” (p. 10), disseminando-se em mais cinco poemas: “Outubro”,
no qual lemos o fragmento há pouco citado; seguido de “Sons”, em que os vetores
urbanos adquirem um contorno vago: “Os sons passam ao longe/ no seu interior
como noutra cidade”. O cenário urbano prossegue ainda em outros textos,
desenhando o amplo espectro da representação - sejam as “Grandes cidades
afogadas em fumo...”, mencionadas em “Cidades” ou o ceticismo insinuado no poema "Nosso tempo": “Não se pode
escolher para o silêncio/ uma cidade ouvida quando os dias/ como estranhas
fachadas se separam”, retornando um pouco adiante,
em “After long silence”: “A cidade// voltará a chamar-me...”.
Sucedem-se outras séries, entre elas, a da poesia, a da casa, a do mar,
a do tempo, a do espelho, a das margens, mas, sobretudo e de forma celebratória
ou ritualística, a da morte com suas “estrelas de sombra”, seus corpos
enevoados e em chamas: “em chamas/ era o corpo da tarde celebrado” (p.23); “não
me detenhas/ enquanto o corpo eterno / arde na tarde” (p.24). O trabalho de
luto (a dedicatória “à memória do Carlos Fernando”, a tarja e os signos negros
da capa) retorna com uma intensidade de prece ou de escrita desesperada diante
das oxidações operadas pelo tempo, as diversas formas de erosão com que somos
obrigados a conviver: “Mas o/ rosto sem luz vence-te/ como se a vida visses com
os olhos/ da face enevoada” (p.56). Os poemas elegíacos atingem uma altitude e
intensidade emotiva raras vezes alcançada na literatura contemporânea, configurando
a ideia desconcertante da permanência da fantasia colorida do sonho e da
criação, mesmo em face da corrosão, do ar calcinado dos motores e da inevitável
oxidação gelada das células, como no belíssimo poema “No mar”, um dos mais
longos do livro:
Quereriam
ouvir-te respirar,
mundo mudado,
os que no mar excêntrico
soltam
braços, lembrados de que
o ar
não os pode salvar Mas é idêntico
ao ar o mar
sem
centro,
figura
que fulgura
fora do teu
corpo de
mármore, lavrado
pelo tempo,
mundo a
que não
pertencem os náufragos
amados e um
dia perdidos
nesse líquido
frio
indivisível
Se pudessem ouvir
o teu sopro,
seriam
devolvidos
aos veios do visível
divisível? As
estrelas de
sombra
desfazendo
um céu sem
falhas deixariam
cair sobre
eles
de novo a sua
cinza (p.36)
O que se perde em forma ganha-se em tempo, concebido como eternidade: o corpo perdido
torna-se único e definitivo através da morte, esta talvez seja outra
possibilidade sugerida pela ausência de pontuação e imediata intersecção de
planos sintagmáticos, anulando espaços entre o “líquido frio indivisível” da
palavra e “os veios do visível divisível” da emoção. Paralela à extensa
reflexão sobre o tempo e a morte, a escrita poética de Gastão Cruz instala mais
a hesitação e a alternativa do que a pergunta e a dúvida, estabelecendo contiguidade
entre os poemas, forçando a flutuação e contaminação dos sentidos.
Como se tratasse de uma estrutura explodindo sobre si mesma, retomando
traços expressivos de poesia 61, o sujeito de enunciação, entretanto,
reaparece, ainda que deixando uma suspeição a respeito da poesia como
confidência: “Nada nos desconhece como a arte/ o que nos dizem sobre os
sentimentos/ essas frases?” (p.25). Ao
longo de todo o livro, sucedem-se, estilhaçadas, as alusões e imagens sobre a
incoerência do sistema em que se assenta a ordem das coisas, o camoniano
desconcerto do mundo, percebido por um olhar cético, hesitante entre a
escuridão do mundo individual e o brilho enganador das cidades que engendra a
elaboração salvadora de quimeras: “... A cidade// voltará a chamar-me” (p.17).
Ainda que nos espaços calcinados permaneça o brado desconcertante: “Estamos
vivos e já não temos tempo” (p. 37).
CRUZ, Gastão. As pedras negras. Lisboa: Relógio
d’água, 1995.


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