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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Vianna Moog

Livro do mês:

      Acabo de ler um romance difícil: nas primeiras páginas, tentei abandonar, entre outras coisas, por estar vazado em linguagem excessivamente clássica e purista. Sem falar nos torneios frasais um tanto pomposos, alguma colocação pronominal próxima da sintaxe lusa, uma afinação estreita aos parâmetros realistas. A descoberta de um grande escritor, com domínio de amplas descrições e o tom polêmico da trama acabaram me dobrando. Trata-se de Um rio imita o Reno, romance publicado em 1938 por Vianna Moog (1906-1988), intelectual gaúcho versado em sociologia, filosofia e literatura, merecidamente elogiado pelo estudo Bandeirantes e pioneiros (1954) e por um clássico ensaio, Eça de Queirós e o século XIX, (1938). Membro da Academia Brasileira de Letras, o autor desempenhou funções diplomáticas em Nova York e no México, tendo escrito mais dois romances, Uma jangada para Ulisses (1959) e Tóia (1962).


     As quatro estações estruturam o enredo que acompanha a malograda trajetória afetiva de um engenheiro amazonense, contratado para construir uma represa, no intuito de solucionar o problema da água potável numa cidade do Rio Grande do Sul, a fictícia Brumental, identificada com São Leopoldo, banhada pelo rio dos Sinos. Geraldo Torres, brasileiro de origem indígena, apaixona-se por Lore Wolff descendente de alemães, orgulhosos de sua ascendência germânica e superioridade racial. Com o namoro interditado pela família da moça, as sanções contra o engenheiro acabam em perseguição política, gerando o seu afastamento da cidade e a suspensão do projeto de saneamento básico. Na sequência, a moça adoece gravemente de febre tifóide, da qual se livra custosamente. A família acalenta o sonho de casá-la com um primo alemão, médico famoso que, ao final, em visita à colônia, traz informes negativos a respeito da Alemanha real. O máximo da decepção fica por conta da descoberta oficial de que os Wolffs têm sangue judeu. O depoimento de Otto sobre o nazismo é arrasador:
      "Ora! Isso é uma realidade de parada. A realidade cotidiana é negra: os campos de concentração... aperturas de toda sorte, perseguições, barbaridades, banimentos, assassínios..." (p.211)


      Apesar da moldura tradicional, o desenlace usa de forma ousada o recurso do corte e do suspense. Enquanto no Rio de Janeiro o engenheiro se esforça em reestruturar sua vida, ainda atormentado pela recordação de Lore, a milhares de quilômetros, no sul a moça "numa absurda e alvoroçada esperança", após uma tempestade de primavera, aparenta avistar na rua o vulto do amazonense que teria voltado. "Ele era moreno como o chão do pátio, como a casca dos pinheiros, tinha a poesia do vento, a força do sol. Era filho duma terra nova, duma raça adolescente, duma civilização diferente da europeia, duma civilização sem preconceitos absurdos, sem a obsessão do heroísmo e da guerra" (p.218). Em sua imaginação ele volta. O sobrinho, louro, de olhos azuis,  entrega-se a uma atividade sempre proibida: brinca na rua com moleques morenos.  

      A envolver uma história de amor contrariado, temos a reconstituição rigorosa dos costumes e do substrato ideológico e histórico da época da imigração alemã no sul do país. Num trabalho ficcional pautado pelo racionalismo, clareza e amplitude representativa, o cenário regional presta-se a um forte embate, em que culturas distintas mostram a nitidez de suas idiossincrasias. A difícil convivência entre brasileiros e descendentes de alemães, em contexto de acentuada expansão da ideologia da superioridade étnica ariana, motiva a que o narrador transforme o protagonista em porta voz de sua denúncia contra a intolerância e o obscurantismo. Vianna Moog condena o isolamento e a supremacia racial, como práticas nocivas na construção de uma sociedade cordial, que só teria vantagens em intensificar as relações étnicas. De forma enviesada, seu projeto ficcional  tem afinidades com o projeto nacionalista da ditadura de Vargas. A atualidade do livro pode ser constatada ainda pelos debates e temas abordados, como a revalidação do diploma médico para estrangeiros, as misturas raciais ocorridas no país, a importância da imigração para o desenvolvimento.  Bem estruturado, o romance desenvolve sem disfarces uma tese, sem deixar de ser uma construção ficcional inteiriça e envolvente, fruto de um engajamento nacionalista convincente e implacável.   

MOOG, Vianna. Um rio imita o Reno. 11ª  ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.                                                            

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