É conhecida a
hegemonia que a atividade das letras gozava no Brasil colonial, que vigora mesmo depois da independência. Por vigência de uma tradição portuguesa, de desvalorização do
trabalho manual e artesanal, esta tendência persiste desde o período colonial
até meados do século XIX. Por força do ensino jesuítico, com ênfase no literário
e retórico, a atividade intelectual confundia-se com os interesses da classe dominante, detentora de grandes
propriedades rurais.
Nesse
contexto histórico, a atividade intelectual era encarada pela maioria dos
literatos como treinamento para conquistar altos cargos, como observa Nelson
Werneck Sodré, como forma de “suprir ilusoriamente a propriedade da terra e os
privilégios de nascimento” (SODRÉ, 1974, 36). Como não podia deixar de ser,
nesse paradigma de sociedade, o intelectual é visto como o natural intérprete
dos interesses da classe dominante. Complementa Sodré: “Numa estrutura social
como a existente no Brasil do início do século XIX, a camada intermediária, em
que são recrutados os intelectuais, deveria depender da classe dominante, cujos
padrões aceita e consagra” (SODRÉ, 1974, 35). Deriva dessa circunstância o
“timbre aristocrático” que passa a caracterizar a atividade cultural no país.
Desprovida
de função pragmática, a incipiente elite intelectual passa a ser cooptada pela
elite dominante, como porta-voz de suas aspirações e interesses. Distanciada
dos empreendimentos produtivos, relacionados que fossem à análise da
constituição geológica, a pesquisa científica específica inexiste. Afastada do
povo, a elite, incrementada pelo regime escravocrata, incentiva a
atividade intelectual, dando azo à disseminação do descaso pela atividade
física e o trabalho mecânico.
“A
atividade intelectual, que chega demasiado tarde na colônia, apresenta-se,
então, aos elementos da camada intermediária, como via de acesso social, e a
cultura é apreciada tão-somente nesse sentido, cultivada para ser ostentada,
exteriorizada, não para prazer próprio ou pela utilidade em si. (...) A cultura
que tinha por finalidade não o saber, mas o diploma – que funcionava como
título de enobrecimento - seria, consequentemente, literária e abstrata,
transmitida por métodos que se baseavam, não sobre a ação e o concreto, mas
sobre a leitura, o comentário e a especulação” (SODRÉ, 1974, 36).
Esse
posicionamento ilhado, neutro, do intelectual, em face dos efetivos e reais
problemas da realidade satisfaz aos interesses da classe dominante, na medida
em que sufoca a possibilidade de crítica e oposição. As vozes dissonantes
contam-se nos dedos e, só para ficar no âmbito do Romantismo, poucos são os
intelectuais com significativo engajamento nos movimentos sociais: Castro Alves
e Tobias Barreto, envolvidos numa causa de forte apelo humanista. Isto não
valida afirmar que os outros são alienados: produziram um soberbo painel do seu
tempo. A adesão a qualquer forma de luta social não é um pressuposto essencial
à literatura; o interesse em conhecer e registrar de forma consequente a
dinâmica da existência humana, em sua constelada diversidade, constitui a
melhor forma de engajamento, no caso do escritor.
Talvez se possa referir um corte epistemológico, nesse estado de coisas, a partir de meados do século XIX. Desde a forçosa integração ao movimento internacional de acumulação capitalista, iniciada ainda no período colonial, o Brasil evolui, assimilando traços da civilização europeia, sem deixar de integrar costumes, tradições e valores forjados em rica miscigenação cultural. Desse perfil multifacetado e do esforço de compreendê-lo, surgem obras e tratados de análise, realizados por cientistas sociais (Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire). Na outra ponta, não menos importante, os escritores de variadas tendências registram a formidável experiência de vida nos diversos quadrantes do território. Esta atividade individual requer uma complexa formação, além de uma disposição de compreender em profundidade o tempo que a cada um foi dado viver e conhecer.
Alguns
antagonismos revelam-se significativos na produção intelectual brasileira: o
individual e o coletivo, a autonomia e a dependência, a utopia e o senso
crítico. Desde meados do século XIX, estas e outras oposições, fortemente
decalcadas por vetores da economia e de classes sociais, delineiam-se como
filtros, cada vez mais aperfeiçoados, de uma representação alegórica ou
panorâmica da realidade. Ao contrário da produção científica, por natureza
associativa, e da cultura popular, que pressupõe continuidade nos fluxos de
criação e consumo, a criação literária revela-se como síntese de intensa
maturação subjetiva. Insere-se num processo coletivo que envolve outros atores,
tais como mercado, tradição literária, editor, leitor. Roberto Schwarz, em Que horas são? (1987), discute tais
questões, de forma extremamente lúcida. Após apresentar argumentos a favor da
literatura como “um processo coletivo de produção”, assevera que esse
entendimento pode contribuir para “o esquecimento desta outra dimensão
extraordinária da literatura, em que munido de papel e tinta e de sua
experiência, sem a intenção de completar o que disse fulano nem de ser
completado mais adiante por beltrano, como seria o caso no trabalho científico,
e sem considerações também de oportunidade política ou comercial, um homem
tanta dizer aqui e agora o sentido da vida atual” (SCHWARZ, 1987, p.159-160).
A
relação escritor/sociedade é sempre uma relação dialética. Longe de ser esta
uma assertiva marxista fortuita, tenta perceber os processos de mútua
influência e cumplicidade entre as duas instâncias. A verdadeira inserção histórica
de um escritor ocorre na medida em que se mostra receptivo à tarefa de
registrar as práticas e contradições existenciais de seu tempo.
SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de história da cultura brasileira. Rio
de Janeiro: Civilização brasileira, 1974.
SCHWARZ, Roberto. “Crise e
literatura”. Que horas são? São
Paulo: Companhia das letras, 1987, p.157-163.

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