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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Literatura e sociedade



     É conhecida a hegemonia que a atividade das letras gozava no Brasil colonial, que vigora mesmo depois da independência. Por vigência de uma tradição portuguesa, de desvalorização do trabalho manual e artesanal, esta tendência persiste desde o período colonial até meados do século XIX. Por força do ensino jesuítico, com ênfase no literário e retórico, a atividade intelectual confundia-se com os interesses da classe dominante, detentora de grandes propriedades rurais.
            Nesse contexto histórico, a atividade intelectual era encarada pela maioria dos literatos como treinamento para conquistar altos cargos, como observa Nelson Werneck Sodré, como forma de “suprir ilusoriamente a propriedade da terra e os privilégios de nascimento” (SODRÉ, 1974, 36). Como não podia deixar de ser, nesse paradigma de sociedade, o intelectual é visto como o natural intérprete dos interesses da classe dominante. Complementa Sodré: “Numa estrutura social como a existente no Brasil do início do século XIX, a camada intermediária, em que são recrutados os intelectuais, deveria depender da classe dominante, cujos padrões aceita e consagra” (SODRÉ, 1974, 35). Deriva dessa circunstância o “timbre aristocrático” que passa a caracterizar a atividade cultural no país.
            Desprovida de função pragmática, a incipiente elite intelectual passa a ser cooptada pela elite dominante, como porta-voz de suas aspirações e interesses. Distanciada dos empreendimentos produtivos, relacionados que fossem à análise da constituição geológica, a pesquisa científica específica inexiste. Afastada do povo, a elite, incrementada pelo regime escravocrata, incentiva a atividade intelectual, dando azo à disseminação do descaso pela atividade física e o trabalho mecânico.
            “A atividade intelectual, que chega demasiado tarde na colônia, apresenta-se, então, aos elementos da camada intermediária, como via de acesso social, e a cultura é apreciada tão-somente nesse sentido, cultivada para ser ostentada, exteriorizada, não para prazer próprio ou pela utilidade em si. (...) A cultura que tinha por finalidade não o saber, mas o diploma – que funcionava como título de enobrecimento - seria, consequentemente, literária e abstrata, transmitida por métodos que se baseavam, não sobre a ação e o concreto, mas sobre a leitura, o comentário e a especulação” (SODRÉ, 1974, 36).
            Esse posicionamento ilhado, neutro, do intelectual, em face dos efetivos e reais problemas da realidade satisfaz aos interesses da classe dominante, na medida em que sufoca a possibilidade de crítica e oposição. As vozes dissonantes contam-se nos dedos e, só para ficar no âmbito do Romantismo, poucos são os intelectuais com significativo engajamento nos movimentos sociais: Castro Alves e Tobias Barreto, envolvidos numa causa de forte apelo humanista. Isto não valida afirmar que os outros são alienados: produziram um soberbo painel do seu tempo. A adesão a qualquer forma de luta social não é um pressuposto essencial à literatura; o interesse em conhecer e registrar de forma consequente a dinâmica da existência humana, em sua constelada diversidade, constitui a melhor forma de engajamento, no caso do escritor.

           
      Talvez se possa referir um corte epistemológico, nesse estado de coisas, a partir de meados do século XIX. Desde a forçosa integração ao movimento internacional de acumulação capitalista, iniciada ainda no período colonial, o Brasil evolui, assimilando traços da civilização europeia, sem deixar de integrar costumes, tradições e valores forjados em rica miscigenação cultural. Desse perfil multifacetado e do esforço de compreendê-lo, surgem obras e tratados de análise, realizados por cientistas sociais (Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire). Na outra ponta, não menos importante, os escritores de variadas tendências registram a formidável experiência de vida nos diversos quadrantes do território. Esta atividade individual requer uma complexa formação, além de uma disposição de compreender em profundidade o tempo que a cada um foi dado viver e conhecer.
            Alguns antagonismos revelam-se significativos na produção intelectual brasileira: o individual e o coletivo, a autonomia e a dependência, a utopia e o senso crítico. Desde meados do século XIX, estas e outras oposições, fortemente decalcadas por vetores da economia e de classes sociais, delineiam-se como filtros, cada vez mais aperfeiçoados, de uma representação alegórica ou panorâmica da realidade. Ao contrário da produção científica, por natureza associativa, e da cultura popular, que pressupõe continuidade nos fluxos de criação e consumo, a criação literária revela-se como síntese de intensa maturação subjetiva. Insere-se num processo coletivo que envolve outros atores, tais como mercado, tradição literária, editor, leitor. Roberto Schwarz, em Que horas são? (1987), discute tais questões, de forma extremamente lúcida. Após apresentar argumentos a favor da literatura como “um processo coletivo de produção”, assevera que esse entendimento pode contribuir para “o esquecimento desta outra dimensão extraordinária da literatura, em que munido de papel e tinta e de sua experiência, sem a intenção de completar o que disse fulano nem de ser completado mais adiante por beltrano, como seria o caso no trabalho científico, e sem considerações também de oportunidade política ou comercial, um homem tanta dizer aqui e agora o sentido da vida atual” (SCHWARZ, 1987, p.159-160).
            A relação escritor/sociedade é sempre uma relação dialética. Longe de ser esta uma assertiva marxista fortuita, tenta perceber os processos de mútua influência e cumplicidade entre as duas instâncias. A verdadeira inserção histórica de um escritor ocorre na medida em que se mostra receptivo à tarefa de registrar as práticas e contradições existenciais de seu tempo.

SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de história da cultura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1974.

SCHWARZ, Roberto. “Crise e literatura”. Que horas são? São Paulo: Companhia das letras, 1987, p.157-163. 

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