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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Helder Moura Pereira

Livro do mês: Eu depois inventei o resto



      No primeiro semestre, registramos a presença de Helder Moura Pereira em dose dupla. O poeta português, que estreou em companhia de (hoje) importantes nomes da literatura de seu país, num singular e distante Cartucho (1976), uma sacola, lacrada a chumbinho e cordel, com poemas amassados dentro, reaparece em dois lançamentos quase simultâneos. Em coletânea de maior fôlego, na sequência de mais de 20 livros de poesia, foi lançado Pela parte que me toca, em selo da Assírio & Alvim. Desde o volume Um raio de sol (2000), esta tem sido a chancela dos livros de HMP. Em fôlego reduzido, mas de dimensão não menos significativa, surge Eu depois inventei o resto, edição limitadíssima, sob a chancela de Companhia das ilhas, dos Açores. Em outros momentos, o autor reabasteceu seu trabalho lírico através de pequenas edições, (Cf. Em cima do acontecimento, de 1995).


            O segundo título revela a disposição de mergulhar em trilhas que descortinam a tênue fronteira entre vida e poesia. Neste âmbito, de suposta ressonância autobiográfica, emergem subsídios de uma criação receptiva às variações de um real supostamente vivido. Em dezessete poemas, fragmentos ligeiros alcançam por vezes efeitos surpreendentes, capazes de iluminar zonas obscuras de um percurso intrigante, iniciado em voo solo, há quarenta anos, “entre o deserto e a vertigem”. Se procurarmos na história literária os ecos desse “resto” (mencionado no título), encontraremos inúmeros estilhaços; um deles, em célebre poema de Verlaine, finaliza uma arte poética: “e todo o resto é literatura”.  O livrinho fecha-se também nomeando esse resto, em cujo limiar, como antevéspera de uma aprendizagem, são delineadas situações aparentemente esdrúxulas, aprender a beber e a escrever, ainda que intimamente relacionadas pelos efeitos de mudança sugeridos:
           
            No meu tempo, ah, dizer no meu
            tempo é engraçado, havia pais
            que levavam os filhos às putas.
(...) O meu pai não
me levou a nenhuma coisa dessas,
mas deu-me o primeiro vinho a provar
e ensinou-me a escrever. Eu
depois inventei o resto.


Os índices ligados à sexualidade resultam sempre intrigantes, quando não indiciam um atalho escorregadio em direção à previsibilidade.  Apesar de certa ênfase na temática sexual, a postura de um observador outsider, paralisado em perplexidade insiste em provocar o garoto flagrado: “Abri a porta da casa de banho/ e vi rapazes e raparigas de rabo/ ao léu, tudo ao molho, a darem-se/ reguadas e aos risinhos./ Eu nunca tinha visto nada assim/ de muito sexual e fiquei intrigado”.
Nesta coletânea, o uso de um registro próximo da prosa e de uma sintaxe enrijecida surpreende num poeta de configuração fortemente marcada pela ambiguidade, leveza da léxico e sutileza de enquadramentos frasais. Só não lhe podemos exigir falta de unidade e ligadura. A descoberta da sexualidade impõe-se como tema.
 Os breves poemas, de estrutura simples e linear, contam pequenos episódios, revivendo jogos, traições, espantalhos, tarefas escolares, amizades, segredos, descobertas, búzios, - todo um percurso insuspeito de situações projetadas no universo fantasioso da infância. No bojo das recordações, uma ponta de mistério recobre um detalhe. Quase tudo se afirma, mas nem tudo se diz.  Apesar do apelo ao factual aparentemente ingênuo, alguma nota macula o paraíso; as coisas, por mais singelas e ingênuas, carregam também uma nesga de espanto e terror. Os despretensiosos episódios têm fim, ganham um ponto final no papel, mas permanecem como enigmas para quem os lê, pouco edificantes e repousantes. Vamos nos deter num poema:

            Eu ia para a bola com uma bandeirinha
            Na mão. Puxaram-me para um vão
            De escada e disseram vou fazer de ti
            Um homem. Foi rápido o tempo
            Que demorou a fazer de mim um homem.
            Quando cheguei ao campo dos arcos
            Ainda estava a dar a constituição das equipas.

(Antes de prosseguir, impõe-se um parêntese, para elucidar alguns problemas de monta. Os múltiplos caminhos que se oferecem ao profissional da literatura, aquele que se dedica à crítica e à pesquisa literária, encontram sua base mais moderna em formulações da linguística, da semântica e da semiótica. Caso queira este estudioso fugir do terreno da história da literatura, onde impera o que Eduardo Prado Coelho rotula de “caos habilmente dissimulado”, cristalizado numa fundamentação teórica em que vale quase tudo (biografia, sociologia, psicologismo, influências), deverá municiar-se dos métodos e pressupostos oriundos das três áreas de saber referidas há pouco. O que muda é o enfoque diante do texto, na busca de  perceber os índices de sua literariedade, termo usado pelos formalistas russos para determinar o conhecimento específico da ciência literária: os recursos de linguagem, (do ritmo à metonímia) e as formas literárias (a retórica, os gêneros literários). A contribuição dos formalistas russos fundamenta o movimento de fuga em relação aos métodos tradicionais da história literária.)
Mas voltemos ao livro de Moura Pereira. Passávamos em revista alguns poemas, nos quais se percebia a ênfase no referente da sexualidade e do desejo. A turbulência toma conta do garoto ao se dar conta de intensas mudanças: “E a primeira vez que me senti/ foi a pensar em ti. Foi tão bom”. De volta ao poema citado. Irônico, elíptico, o texto nada julga ou pondera. Enumera os vários lances de um episódio da infância, mas deixa subentendidos alguns sinais: “bandeirinha na mão”, jogo de bola, o “vão da escada”, para onde foi puxado e onde foi dito que iam fazer do garoto um homem. Estes elementos denotativos contam uma história, o enquadramento total parece incompleto. Se nos dispomos a juntar possíveis ilações (hermenêuticas), somos levados a considerar a possibilidade de um banal jogo de futebol na infância. O futebol tem lá suas regras (“bandeirinha” indicia um dos juízes?), seus processos e ritos (“a constituição das equipas”). No intervalo do jogo, a violência: “Puxaram-me para um vão/ de escada e disseram vou fazer de ti/ um homem.” Tudo à volta de um objetivo proclamado: alguém fazer de um garoto um homem, com tudo que isso possa representar, estas as realidades ditas pelo poema.
(Outro parêntese, direto. O grande risco da leitura literária é reduzir o texto a um único sentido, o que seria sufocá-lo. Qualquer sentido é sempre um ponto de partida, nunca o lugar de chegada definitiva. Um dos debates mais produtivos ocorridos na teoria literária nas últimas décadas diz respeito à natureza infinita do sentido de um texto. Não há um sentido único.)
Ora bolas, bandeirinha, jogo de bola e vão de escada. Talvez a infância seja/ não seja um paraíso justamente porque possibilita o mistério de abrigar essas coisas fluidas, pontuais, contraditórias, ambíguas.

PEREIRA, Helder Moura. Eu depois inventei o resto. Lajes do Pico: Companhia das ilhas, 2013. Col. Azulcobalto. 28p.
Cf. como fundamentação teórica:

COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.

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