No primeiro semestre, registramos a
presença de Helder Moura Pereira em dose dupla. O poeta português, que
estreou em companhia de (hoje) importantes nomes da literatura de seu país, num
singular e distante Cartucho (1976),
uma sacola, lacrada a chumbinho e cordel, com poemas amassados dentro,
reaparece em dois lançamentos quase simultâneos. Em coletânea de maior fôlego,
na sequência de mais de 20 livros de poesia, foi lançado Pela parte que me toca, em selo da Assírio & Alvim. Desde o
volume Um raio de sol (2000), esta
tem sido a chancela dos livros de HMP. Em
fôlego reduzido, mas de dimensão não menos significativa, surge Eu depois inventei o resto, edição
limitadíssima, sob a chancela de Companhia das ilhas, dos Açores. Em outros momentos, o autor reabasteceu seu trabalho lírico através de pequenas edições, (Cf. Em cima do acontecimento, de 1995).
O
segundo título revela a disposição de mergulhar em trilhas que descortinam a
tênue fronteira entre vida e poesia. Neste âmbito, de suposta ressonância
autobiográfica, emergem subsídios de uma criação receptiva às variações de um
real supostamente vivido. Em dezessete poemas, fragmentos ligeiros alcançam por
vezes efeitos surpreendentes, capazes de iluminar zonas obscuras de um percurso
intrigante, iniciado em voo solo, há quarenta anos, “entre o deserto e a
vertigem”. Se procurarmos na história literária os ecos desse “resto”
(mencionado no título), encontraremos inúmeros estilhaços; um deles, em célebre
poema de Verlaine, finaliza uma arte poética: “e todo o resto é
literatura”. O livrinho fecha-se também
nomeando esse resto, em cujo limiar, como antevéspera de uma aprendizagem, são
delineadas situações aparentemente esdrúxulas, aprender a beber e a escrever,
ainda que intimamente relacionadas pelos efeitos de mudança sugeridos:
No
meu tempo, ah, dizer no meu
tempo
é engraçado, havia pais
que
levavam os filhos às putas.
(...) O meu
pai não
me levou a
nenhuma coisa dessas,
mas deu-me o
primeiro vinho a provar
e ensinou-me a
escrever. Eu
depois
inventei o resto.
Os índices
ligados à sexualidade resultam sempre intrigantes, quando não indiciam um
atalho escorregadio em direção à previsibilidade. Apesar de certa ênfase na temática sexual, a
postura de um observador outsider,
paralisado em perplexidade insiste em provocar o garoto flagrado: “Abri a porta
da casa de banho/ e vi rapazes e raparigas de rabo/ ao léu, tudo ao molho, a
darem-se/ reguadas e aos risinhos./ Eu nunca tinha visto nada assim/ de muito
sexual e fiquei intrigado”.
Nesta
coletânea, o uso de um registro próximo da prosa e de uma sintaxe enrijecida
surpreende num poeta de configuração fortemente marcada pela ambiguidade,
leveza da léxico e sutileza de enquadramentos frasais. Só não lhe podemos
exigir falta de unidade e ligadura. A descoberta da sexualidade impõe-se como
tema.
Os breves poemas, de estrutura simples e
linear, contam pequenos episódios, revivendo jogos, traições, espantalhos,
tarefas escolares, amizades, segredos, descobertas, búzios, - todo um percurso
insuspeito de situações projetadas no universo fantasioso da infância. No bojo
das recordações, uma ponta de mistério recobre um detalhe. Quase tudo se
afirma, mas nem tudo se diz. Apesar do
apelo ao factual aparentemente ingênuo, alguma nota macula o paraíso; as
coisas, por mais singelas e ingênuas, carregam também uma nesga de espanto e
terror. Os despretensiosos episódios têm fim, ganham um ponto final no papel,
mas permanecem como enigmas para quem os lê, pouco edificantes e repousantes.
Vamos nos deter num poema:
Eu ia para a bola com uma
bandeirinha
Na mão. Puxaram-me para um vão
De escada e disseram vou fazer de ti
Um homem. Foi rápido o tempo
Que demorou a fazer de mim um homem.
Quando cheguei ao campo dos arcos
Ainda estava a dar a constituição
das equipas.
(Antes de
prosseguir, impõe-se um parêntese, para elucidar alguns problemas de monta. Os
múltiplos caminhos que se oferecem ao profissional da literatura, aquele que se
dedica à crítica e à pesquisa literária, encontram sua base mais moderna em
formulações da linguística, da semântica e da semiótica. Caso queira este
estudioso fugir do terreno da história da literatura, onde impera o que Eduardo
Prado Coelho rotula de “caos habilmente dissimulado”, cristalizado numa
fundamentação teórica em que vale quase tudo (biografia, sociologia,
psicologismo, influências), deverá municiar-se dos métodos e pressupostos
oriundos das três áreas de saber referidas há pouco. O que muda é o enfoque
diante do texto, na busca de perceber os índices de sua literariedade, termo usado
pelos formalistas russos para determinar o conhecimento específico da ciência
literária: os recursos de linguagem, (do ritmo à metonímia) e as formas
literárias (a retórica, os gêneros literários). A contribuição dos formalistas
russos fundamenta o movimento de fuga em relação aos métodos tradicionais da
história literária.)
Mas voltemos
ao livro de Moura Pereira. Passávamos em revista alguns poemas, nos quais se
percebia a ênfase no referente da sexualidade e do desejo. A turbulência toma
conta do garoto ao se dar conta de intensas mudanças: “E a primeira vez que me
senti/ foi a pensar em ti. Foi
tão bom”. De volta ao poema citado. Irônico, elíptico, o texto nada julga ou
pondera. Enumera os vários lances de um episódio da infância, mas deixa
subentendidos alguns sinais: “bandeirinha na mão”, jogo de bola, o “vão da
escada”, para onde foi puxado e onde foi dito que iam fazer do garoto um homem.
Estes elementos denotativos contam uma história, o enquadramento total parece
incompleto. Se nos dispomos a juntar possíveis ilações (hermenêuticas), somos
levados a considerar a possibilidade de um banal jogo de futebol na infância. O
futebol tem lá suas regras (“bandeirinha” indicia um dos juízes?), seus
processos e ritos (“a constituição das equipas”). No intervalo do jogo, a
violência: “Puxaram-me para um vão/ de escada e disseram vou fazer de ti/ um
homem.” Tudo à volta de um objetivo proclamado: alguém fazer de um garoto um
homem, com tudo que isso possa representar, estas as realidades ditas pelo
poema.
(Outro
parêntese, direto. O grande risco da leitura literária é reduzir o texto a um
único sentido, o que seria sufocá-lo. Qualquer sentido é sempre um ponto de
partida, nunca o lugar de chegada definitiva. Um dos debates mais produtivos
ocorridos na teoria literária nas últimas décadas diz respeito à natureza
infinita do sentido de um texto. Não há um sentido único.)
Ora bolas,
bandeirinha, jogo de bola e vão de escada. Talvez a infância seja/ não seja um
paraíso justamente porque possibilita o mistério de abrigar essas coisas
fluidas, pontuais, contraditórias, ambíguas.
PEREIRA, Helder Moura. Eu depois inventei o resto. Lajes do
Pico: Companhia das ilhas, 2013. Col. Azulcobalto. 28p.
Cf. como fundamentação teórica:
COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.

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