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terça-feira, 2 de julho de 2013

Léa Nilce Mesquita

      Não foi só o país que acordou e foi às ruas para expressar algum tipo de protesto. Alguns talentos, adormecidos há algum tempo, também foram chacoalhados pelos gritos das ruas. Tal se pode afirmar de Léa Nilse Mesquita (que era Nilce), poeta rigorosa e de muitos recursos, despertada por força da veemência das ruas. No bilhete em que autoriza a divulgação do poema, ela insiste que "repentista gosta de espalhar seu canto e folheto pelas praças".


No calor da hora

                17/6/13,
                noite  

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a viagem
sem cobranças,
portas sem trancas,
entradas sem catracas,
chutar o pau da barraca
com meu direito
de eleito (sem  pleito)
ao transporte,
ao esporte,
à escola,
à cola,
ao prato na mesa,
à meia,
paga pela inteira,
à terra, à bolsa-tudo,
à vida no outro mundo
possível, que inundo
da paz com a minha agressão,
do meu refrão...

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a vadiagem,
o oba-oba,
tirar a roupa
para o papa,
atirar empregada
contra patroa
e, numa boa,
gritar não
à repressão
da Cracolândia.
Quero a Banânia,
autoridades surdas
ao medo das ruas,
aos prédios em alarme,
mas que desarmem
o simples cidadão,
este perigo,
este inimigo
do meu refrão...

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a postagem
do meu torpedo
furando o bloqueio
dos olhos arregalados
do espanto calado
de antes
diante
da minha determinação
ao futuro da nação:
“Cumpra-se no ato,
é dever do Estado
tudo dar
ao menor de 30
e ao maior menor se sinta;
do resto, cobrar
a conta
de ponta a ponta,
eliminando-se os dispostos
a contrariar o imposto,
fora do cordão
do meu refrão...”

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

                                    Léa Nilse Mesquita




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