Livro do mês: Via férrea
Lançado
recentemente, o livro Via férrea
confirma a qualidade e densidade da fatura poética de Mário Alex Rosa, após a
estreia madura dada a lume em 1912 (Ouro
Preto). O título reivindica
um lugar distante de outro caminho poético, cintilante e etéreo, palmilhado em
outro contexto, como o do parnasiano Olavo Bilac, que nomeia Via láctea a uma série de sonetos, em que figura o famoso “Ora (direis) ouvir estrelas!” Nada existe aqui de fluido
e volátil, a não ser “dois passarinhos (que) voam desatinados no céu/ aberto em
asas”, prenunciando a silenciosa dança de um corpo em outro, no poema “Silence".
Ao contrário, somos convidados a acompanhar a árdua e extenuante caminhada de
um sujeito lançado à deriva, convivendo com as agruras do abandono, solidão e
impotência diante de uma realidade asfixiante e opressiva. Para dizer de outro
modo, ausentes e eliminadas as impressões ensimesmadas, não há como reprimir as
notas “asfixiadas pela constatação/ de que tudo vai dar em nada”. Metáfora da vida, o título sugere, entre outras rotas de sentido, em sua contingência selvagem, de bicho “que sai” toda manhã “ferrado”, a
dificuldade de penetrar no reino da palavra, que se oculta sob o signo da
hesitação e da incerteza; a inquietação existencial e do corpo, dividido
“entre o escrever e o cortar-se”. Mais do que confronto à associação da poesia
a uma prática evasiva, alada e fluida, esta mudança de paradigma aponta para
uma trilha criativa, que se exercita no convívio com as aparas de uma linguagem
plasmada na solidez do erro e do fracasso – “Dos subterrâneos / da memória sobe
uma poeira encardida”.
(Foto: Blog da Cosac Naify)
Se o núcleo semântico insiste em rondar o abismo e trilhas niilistas, o estrato léxico e os sofisticados recursos de prosódia tecem uma refinada música de câmara, resultante de soberbo domínio do ritmo, sóbria dicção lírica e vigilante construção frasal, capaz de extrair efeitos inusitados de combinatórias aliteradas (nome/menor, chama/chama, riscar um verso/ rés da vida, ver/ler, elide/colidem, abster-se/tarde). Se alguma liberdade sintática lembra Armando Freitas Filho, notável poeta que assina o prefácio, é inegável a sombra de Cecília Meireles em inúmeros poemas, aqueles atravessados por uma voz insistente e reflexiva: “Vá até o porto, contemple o mar,/ ele parece murmurar o seu nome”.
Dentre as
circunstâncias e motivos visitados, uma vez que de uma via (ainda que férrea)
se trata, o tempo acaba por se revelar o aglutinador de maior peso e voracidade:
“Acostume-se/ com a falta. Ela é uma ferrugem se autocorroendo”. Os dias da
semana e a passagem do tempo alternam-se a poemas que se mostram intimamente enredados e coesos, como
dormentes de uma rede inconsútil de situações originárias do cotidiano, da
relação amorosa e da memória. Numa escrita despojada e decupada, receptiva e
hábil em recolher os despojos da tradição, ocorrem envios a outros poetas, como
ao rebater João Cabral que afirmava sair limpo dos poemas: “Não. Não saio do
poema/ de mãos lavadas, peito fechado./ Saio aberto a tudo, sujo, sem máscara”.
Além de remeter ao cotidiano por vezes sujo e à experiência da diversidade, inerente à
criação poética, seria interessante considerar também o contributo da
subjetividade (desalojada do trabalho poético por tendências ditas de
vanguarda) e da ambiguidade. Sangue
novo, lufada jovial, imagens ousadas, tiradas extraídas de apertados atalhos e
gatilhos, coragem de tocar feridas expostas, nos lampejos de uma trilha ou
sabedoria inevitável: “A via férrea cortará os trilhos, os braços e, talvez,/
abra um clarão no escuro”.
ROSA, Mário Alex. Via
férrea. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 64 pp.


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