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terça-feira, 4 de junho de 2013

O anjo da metrópole



      Não era a primeira vez que visitava São Paulo, nem estava a passeio. Era a primeira vez que o fazia acompanhado: grávida de cinco meses, a mulher fazia-lhe companhia. O motivo da viagem era a participação em congresso acadêmico na USP, onde apresentaria pesquisa.
      São Paulo o intimidava, pelo gigantismo, por ser uma metrópole de trânsito confuso e meio caótico. Como usar o metrô, por exemplo? Mineiro pacato, sentia-se acuado, a maior cidade latinoamericana metia medo também pelo histórico de violência. Excessivamente movimentadas e abarrotadas de carros e gente apressada, as ruas assustavam-no com seus ruídos e motores tensos. Com suas avenidas largas, viadutos colossais, praças arrojadas, torres de edifício varando o céu, a grande metrópole ameaçava.



      Decidiram hospedar-se em hotel próximo do MASP, numa daquelas alamedas e adjacências simpáticas, de prédios modernos e ajardinados, repetindo o roteiro de viagem anterior, que fizera sozinho. Desconfiados (em se tratando de mineiros, a palavra é redundante), temerosos, procuram informação no terminal de metrô, assim que descem do ônibus. Inesperado, o aliado na certa foi o sobressalto, estampado no rosto. Uma senhora, que também descera do ônibus, apresentou-se, disse que os observava desde o ônibus e, ao perceber a barriga de gravidez e a vasta mala, decidiu prontificar-se. Disse que também aguardava o metrô, seu destino era próximo ao deles. O homem olhou a mulher, sentiu nela segurança e aceitou, o jeito era seguir a desconhecida solícita. Após outras orientações, disse que era atriz e deu-lhes dois ingressos, convidando-os a que prestigiassem a peça de que participava, no dia seguinte.
      Instalado no hotel, o casal trocou ideias sobre a mulher que surgira do nada e lhes dera tranquilidade. Que papel desempenharia no teatro? O horário do espetáculo não favorecia a sua presença, cruzava com evento do Congresso. Mas, para eles, desde então, passou a valer a possibilidade pouco usual, a existência de pessoas solidárias, surgidas do acaso, nos lugares mais assustadores e inóspitos. Basta manter-se receptivo à generosidade do universo para descobrir o lado positivo das pessoas. O papel interpretado pela misteriosa atriz na peça pouco importava, de vez que na vida real exercitava o papel de anjo bom.

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