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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Eduardo Pitta

      Livro do mês: Persona

      A primeira edição é de 2000; nela inexiste a epígrafe de George Steiner,  que exalta os criadores "excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...", nem o sofisticado acabamento gráfico da última edição. O volume engloba três relatos - "Marilyn", "Kalahari" e "Pesadelo", este mais desenvolvido e espesso. Apesar da autonomia, podem ser lidos como movimentos decisivos no processo de formação da mesma personagem, atuando em circunstâncias distintas. Chama-se Afonso, um nome emblemático para a cultura portuguesa. Alguma insistência na moralidade das ações, para além de possíveis efeitos cênicos, é sintomática do contrapeso repressor de que se revestem os aparelhos institucionais, na iminência da ruína e do esfacelamento.  Quando o império português começa a declinar em África, solapado por séculos de arbitrariedade, exclusão e rapina de toda sorte, o que se tenta ocultar é muito menos o colapso do poder que a sexualidade desviante e exacerbada exercitada na colônia. Híbrido, múltiplo, sensual, o espaço africano, em que pese a influência anglo-saxônica na elite moçambicana, surge como campo de forças onde reverberam os experimentos pseudo-científicos, os ícones da cultura pop, as referências à cultura gay e a pulsão erótica. O mais paradoxal, no entanto, é que os atores mais eficientes na prática da violência e repressão (a disciplinarização dos corpos e seus efeitos) pertencem à etnia branca, postos na mais alta hierarquia.

      A trilogia dos contos de Eduardo Pitta mistura a evocação da guerra colonial, distanciada do natural enquadramento político, à liberação do corpo e da sexualidade, num contexto-limite de trocas culturais e reciprocidade. A mãe do protagonista, hesitante entre a perplexidade e o zelo burguês, diante da arbitrária prisão do filho que se prolonga além do previsto, desaba: "O que é que ele tinha a ver com questões de vulnerabilidade e segurança de Estado?" A contiguidade da libertação política e da concepção libertária da sexualidade é percebida pelos aparelhos estatais (entenda-se imperiais) como o desmoronar de um domínio que se imaginava consistente e eterno. Disso terá certeza o narrador onisciente, ao encerrar o livro: "Decididamente o mundo começava a ruir". O último conto atinge em cheio as estruturas supostamente sólidas do império luso, ao revelar criticamente o lado pouco convencional de um quartel, desvelando a sexualidade nada exemplar de diversos e notáveis atores sociais. Os outros lugares focados na trilogia - a escola e o deserto - não se mostram menos significativos no diagnóstico de uma literatura caudatária das preocupações (a)moralizantes da escrita libertina do século XVIII.

      Nascido em Moçambique (Lourenço Marques, 1949), mas radicalizado em Lisboa desde fins de 1974, Eduardo Pitta vem construindo uma obra em três vertentes: na poesia, no ensaio e, mais tardiamente, na ficção. Forjada na contenção e na síntese, a poesia dada a lume em África (Sílaba a sílaba, 1974) contém as inquietações preliminares em torno da questão colonial, ainda presentes na coletânea seguinte (Um cão de angústia progride, 1979). A seguir, sua poesia centrou-se na busca de compreender o sujeito nas malhas da sexualidade (Olhos calcinados e Archote glaciar). Colabora em vários periódicos, interessado na produção literária contemporânea. Assinalável o seu trabalho pioneiro no âmbito dos gays studies em Portugal, com a publicação de Fractura (2003).
      Surpreende esta sua estreia, pela desenvoltura como constrói, em linguagem ágil, dinâmica, em português globalizado, receptivo a expressões inglesas, francesas e crioulas, uma ficção alegre e ousada, refinada e demolidora, irônica e encharcada de ceticismo. 

PITTA, Eduardo. Persona. Braga, Portugal: Ângelus novos, 2000.
PITTA, Eduardo. Persona. 2a. edLisboa: Quidnovi, 2007.

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