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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Agustina Bessa-Luís

      LER AGUSTINA

      A escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, nascida em 1922, é reconhecida como um dos mais destacados nomes da ficção em língua portuguesa. Agraciada com o Prêmio Camões em 2004, além de vários outros prêmios nacionais e internacionais, produziu extensa obra, coligida em romance, ensaio, teatro, conto e biografia. Com seu quarto livro, A Sibila, publicado em 1954, conquistou o Prêmio Eça de Queirós, viu sua obra vertida para várias línguas e alguns romances seus adaptados para o cinema por Manoel de Oliveira.
     A autora tornou-se recentemente  assunto nas rodas intelectuais do país, após o colunista da Folha de São Paulo, o português João Pereira Coutinho, repreender os editores brasileiros por não se interessarem por Agustina. "... como é possível só ter ouvido falar do maior gênio vivo da literatura portuguesa", indagava no último dia l5, em sua coluna. De fato, não se desculpa o desdém pela ficção de Agustina Bessa-Luís. O jornalista português talvez não saiba que os nossos editores também ignoram altivamente muitos talentos brasileiros.
                                                     (Imagem jornal Hardmusica)

      A opção por um romance de Agustina como livro do mês atende a dois interesses. O primeiro seria mais uma vez demarcar o dilatado repertório literário, que não se confina aos estreitos limites pátrios, mas ao universo da língua portuguesa. O segundo corresponde ao deliberado intento de contribuir para divulgar a obra desta grande romancista, a meu ver, superior a Antonio Lobo Antunes.


Livro do mês:

      A partir  da história de Quina, a autora indicia duas categorias - o primitivo e o civilizado - como instâncias contraditórias, privilegiando o estágio intuitivo, ou pré-civilizado, na configuração da; personagem: "Como o que distingue para lá das montanhas qual a sombra do fumo, de pó ou de nuvem; como o que na floresta conhece o rasto do animal em tempo de caça ou tempo de amores; como o que aspira no vento o perigo, como o que pressente na atmosfera a confiança ou traição, assim ela vivia, intensamente adaptada com essa capacidade selvagem de defesa, de astúcia, de previsão e pré-conhecimento da vida e das coisas e que o homem civilizado, unido em rebanhos pacíficos, amparado em convenções artificiais, vai perdendo ou nunca desenvolve por completo." (BESSA-LUÍS, 1982, p. 47). Embora o relato incorpore expedientes de um sistema social definido (transações financeiras, visita a amigos, frequência a igreja), a protagonista procura preservar sua conformação arcaica, inscrevendo-se no espaço exclusivo do domínio da terra. "Ainda que simulem obedecer e optar pelo vanguardismo dos costumes, as mulheres são rebarbativas às inovações. No fundo de sua natureza, há um apelo ao primitivismo, ao antigo, ao passado, ao já experimentado e, sob esse aspecto, não há fantasias para elas" (BESSA-LUÍS, 1982, p.59).
      No encalce de índices de feitiçaria, inexistentes, por sinal, alguma crítica procura no romance manifestações de poderes proféticos ou mágicos. À exceção de duas ou três referências aos poderes divinatórios da protagonista, o texto pouco ilumina sobre cabalas. As outras personagens, em especial as mulheres, veem seus poderes excepcionais com temor: "Isto aterrorizava as mulheres, depois encheu-as duma devoção recolhida, acreditando a moça possuída de sobrenatural, vítima ou eleita, não sabiam" (BESSA-LUÍS, 1982,p.41). A ideia de magia existe como posicionamento primitivo diante da vida, estagnação no estágio do mito ou do selvagem, atitude diante do mundo. O deslizamento entre o totêmico e o religioso é reconhecido como natural pelos antropólogos (Lévi-Strauss, Ricoeur). O que o repertório verbal encarece (o cheiro penetrante de pragana e maçã, o celeiro, a despensa de alimentos, a marca de entalhadura a canivete, além de arcaísmos) é o primado do primitivo sobre o elaborado, do arcaico sobre o progresso, configurando a importância de preservar valores, dos quais a protagonista se mostra como melancólica guardiã.

      Frágil, como elemento ficcional, o poder de oráculo de Quina reside na resistência cega à dominação financeira ou afetiva, assumindo a forma ritual de poder. A manutenção desse status se dá através do conhecimento intuitivo fortemente aguçado, cujas origens se confundiriam com a ideia do pensamento selvagem, na esteira das reflexões de Lévi-Strauss. O enigmático poder de Quina assenta-se, sobretudo, na sua envolvente e estoica personalidade, capaz de se privar do prazer sexual. Importa observar que a manifestação de oráculo não colide com a presença de Custódio ou do pai, o que não afasta a sombra de uma possível frustração afetiva.
      Desde a abertura do primeiro capítulo, o leitor é lançado no espaço que pertenceu a Quina ("a quinta, com a mesma vessada..."), diante de Germa, seu espelho imperfeito e herdeira, a equilibrar-se na cadeira de balanço. O monólogo que Germa passa a murmurar (e constitui quase toda a narrativa) tem como eco espacial, ou destinação, não o mundo exterior, mas a porta "que comunicava com a cozinha", sugerindo isolamento, ou seja, a constatação de que a Germa - impotente para dar sequência à ação desenvolvida por Quina - resta apenas ser "atual relicário desse terrível, extenuante legado de aspiração humana". Guardiã do passado do clã, Germa asssume a função de rapsodo, ao contar fatos ouvidos.
      A narrativa em terceira pessoa, com a tendência a subordinar episódios e personagens a uma concepção monológica da realidade, habilmente delegada a Germa (a qual, no entanto, aparenta conhecer menos que o narrador implícito), mantém-se adequada à compreensão da tirania da personagem central. A crença em valores pré-estabelecidos, o tom moralizante, as constantes digressões, o irônico distanciamento coexistem numa diegese que se pretende dotada de amplos e ilimitados poderes sobre as personagens, tal como Quina se considerava possuidora de certezas absolutas a respeito das coisas e dos seres. A esta concepção estacionária da realidade colabora o sabor desusado de grande parte do léxico. Ressalte-se, ainda, a persistência de cetros motivos vicentinos: a moça de cana, a vigilância da mãe a envolver a filha casadoura (Narcisa Soqueira e enteada). Sintomática, a propósito da estagnação, a postura cerrada do bruto Augusto: "Odiava o progresso, como fonte de gastos sem compensação irrefutável"  (BESSA-LUÍS, 1982, p.79).
     Este o perfil conflituado de Quina: a divisão entre a fidelidade aos princípios paternos e a liberalidade que, ao final, Custódio faz nela surgir. Vence, não sem doída aflição, a primeira: "Mais vale um mau pai do que um bom amigo. Essa fidelidade ao sangue era lei em toda a família, e Quina sempre a cumprira"  (BESSA-LUÍS, 1982, p.210).
      Mesmo instaurando o poder mágico da palavra, a aparente linearidade da narrativa cumpre a função de impedir a derrocada de toda uma ordem estabelecida. A estagnação sexual feminina parece determinar várias situações: a estagnação no plano econômico, a permanência de um regime fechado, o primado da casa da Vessada sobre a cidade, a aversão à luz elétrica. No tocante às personagens, não se admite a possibilidade de mediação entre o primitivo e o civilizado: ao tentar fazê-lo, Germa mostra-se de frágil consistência.
      Aparentemente a construção do romance assenta-se numa técnica improvisada, em que as personagens são retomadas na medida em que se tornam necessárias ao narrador soberano. Uma releitura, porém, poderá depreender uma admirável contradança especular, em que blocos narrativos se encaixam pelo processo de complementação ou de disparidade. A passagem do plano da sintaxe para o da semântica (ou da estrutura para a hermenêutica) constitui outro grande recurso explorado com maestria. Podem-se ajustar à complementariedade: Quina e a Condessa de Monteros (criado protegido, fidalguia, excentricidade): Francisco Teixeira e Custódio (atração física, o afeto por parte da protagonista): o escudeiro da Condessa e Custódio (objeto de proteção); Domingas e Inácio Lucas (selvageria, violência). Podem-se ajustar no polo da disparidade: Quina e Domingas (a nobreza e aristocracia da primeira, a vulgaridade e sensualidade violenta da segunda): a "miséria encardida" de Narcisa Soqueira e a "empolada dignidade" de Elisa Fattoni.
      A lenta agonia de Quina constitui uma melancólica sinfonia apagando as mínimas vibrações vitais. E a súbita ressurreição do pai, o galã Francisco Teixeira, no belo protegido Custódio assinala para a protagonista, mais uma vez, o conflito entre o liberalismo e a tradição. Mesmo agônica, Quina não abdica da lucidez (além da insinuação sutil de que Custódio poderia ser seu irmão, filho bastardo do pai com a Condessa de Monteros) e pressente os desvelos e cuidados do rapaz como manifestação de interesse, encaminhando-nos à possibilidade de ser o seu amor algo idealizado, muito além da compreensão dele: "ela enchia-se duma grande ânsia de reparação e de bem-estar, fazia-lhe promessas misteriosas, talvez  referindo-se a uma aventura um tanto mística e imortal, porém que o rapaz não interpretava assim" (BESSA-LUÍS, 1982, p.208).
      Na agonia de Quina, Custódio revela-se o seu grande protetor, não arredando do quarto, cobrindo-a de cuidados e carinhos, alternados por uma busca de obsessiva atenção, a que não faltam gestos de violência: "Uma vez, todavia, em que ela durante muito tempo permaneceu quieta, sem mover mesmo a franja da coberta com o bafo, Custódio impacientou-se, lançou-lhe as mãos aos ombros, e sacudiu-a com certa brutalidade" (BESSA-LUÍS, 1982, p.216-217). Aquele que o leitor imaginara ser o anjo exterminador de todo um legado histórico, embora seja um exterminador impotente, (ou de si mesmo), com seu suicídio reforça e legitima a permanência e a estagnação.

   

BESSA-LUÍS, Agustina. A Sibila. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

      Esta resenha constitui uma versão reduzida de análise mais ampla, levada a cabo em: PEREIRA, Edgard. Agustina: a narrativa sob suspeição, in: DUARTE. Constância Lima; SCARPELLI, Marli Fantini. Gênero e representação nas literaturas de Portugal e África. Belo Horizonte: Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, UFMG, 2002, p.92-100.
     

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