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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Wilson Bueno

      Livro do mês:

      Surgido na década de 80, o escritor paranaense Wilson Bueno (1949-2010) tornou-se conhecido como escritor inventivo, publicou uma dezena de livros, em especial três títulos, elaborados numa concepção aberta de gênero, no limite entre a ficção e o texto,  Bolero's bar (1986), Manual de zoofilia (1991) e o romance Mar paraguayo (1992), reconhecido por críticos exigentes como notável experimentação e metáfora de bisonhas ditaduras latinoamericanas. Editou em Curitiba nos anos 80 um caderno de cultura de prestígio, o Nicolau. No último livro, publicado após sua morte, envereda por uma narrativa de feição intimista e familiar, recriando o percurso pessoal e o de sua geração. Diálogo insistente e compulsivo com um irmão falecido, revive cenas luminosas e sombrias do passado em comum, repisando alegrias, traumas e dores familiares. "Mentindo a mim mesmo, alinhavo frases, longos períodos, parágrafos sujos ante o medo e a ignorância de que escrever é para os gênios e não para um poeta em tom menor feito este que lhe escreve, Mano, poeta de fim de semana, sonetista atabalhoado," (p.41). Ousado mergulho na memória, em linguagem  poética e refinada, o relato flagra um funcionário público aposentado, envolvido, com voracidade e impiedade, às reminiscências pessoais, revisando uma vida, ora considerada uma "bandalha ", ora "acabrunhado e inútil universo" (p.139). Acorrentado a lembranças pungentes, o narrador não esconde seu interesse em organizar como discurso os fragmentos de um passado que não se confunde apenas a uma crônica familiar, mas engloba também os anseios, utopias e perplexidades de toda uma geração. 
                                                  (Imagem joaquimdepaula.com.br)
      Numa escrita que busca seu foco nas potencialidades inovadoras da ficção, o relato resvala em alguns percursos paradigmáticos dos anos 70, o da eclosão do movimento gay, no âmbito da revolução sexual da época (os tumultos de Stonewall ocorrem em 1969, nos EUA). Mesmo sem o estatuto de figuração principal, a cena gay, no conjunto dos fragmentos, não perde a relevância, como representação do homossexualismo na literatura brasileira contemporânea. A dedicatória a Caio Fernando Abreu é sintomática. O registro subjetivo, em primeira pessoa, já de si complicado, ressente-se ainda mais de complexidade, por conta de tal atmosfera e perspectiva. No final da orelha, Ubiratan Brasil destaca: "Bueno colocou-se por inteiro em sua literatura e, com isso, obtinha o máximo a partir do mínimo".


      Um traço decadentista, acentuado pelas anotações sobre a velhice, a solidão, o medo e a morte, jamais se afasta do relato: "Curiosa, no entanto, é a Arte, Mano, sobretudo a literária. Ao contrário dos mortos que nos esforçamos para arrancar de uma anonimidade injusta, são eles, os poetas, os escritores, me parece, que palavra a palavra, frase a frase, nos precipitam às pequeninas mortes de um dia, duas, três horas, quinze minutos, em que nos abduzem, não importa quanto, essa suspensão de tudo em torno" (p.16). Da infância coalhada de pontos felizes e amargos, ao presente desolado de um sexagenário, o contexto abarca por alto em torno de uns cinquenta anos de uma família, à roda de suas miúdas circunstâncias, os animais domésticos, o pai bêbado,as tradições, os amigos espezinhados, a doença da mãe, registradas com igual intensidade ao registro dos grandes acontecimentos do mundo exterior. Obra madura, desencantada e maravilhosa, receberá, na dinâmica de um tempo que se deseja próximo, a merecida, plena e justa avaliação.

BUENO, Wilson. Mano, a noite está velha. São Paulo: Planeta, 2011.

2 comentários:

  1. Entrei 2013 decidida a ler autores contemporâneos e, especialmente, brasileiros.
    Encontrei teu blog e me deparo com este livro que achei super interessante.
    Vou ler, pode ter certeza.

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  2. Na certa você terá maturidade para apreciar uma ficção pouco interessada em ações mirabolantes e espetaculares, um tanto reflexiva e poética. Boa leitura!

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