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sábado, 5 de janeiro de 2013

Contabilidade enganosa

      Não deixa de surpreender o editorial de hoje da Folha de São Paulo, um dos jornais com maior número de jornalistas simpatizantes do PT por metro quadrado. A cobertura do mensalão está aí para provar: apesar de se pretender abrangente e neutra, abriu espaço excessivo para críticas ao processo.  Enquanto o material jornalístico tendia para a isenção, os analistas políticos (Jânio de Freitas, Marcelo Coelho, os dois Singer, Safatle, entre outros) não perdoavam o que eles consideravam um azedume do STF contra as impávidas figuras do partido envolvidas no desvio de verbas públicas. Enquanto era quase uníssona a indignação da sociedade diante dos crimes praticados contra a democracia, os analistas políticos da FSP tinham a desfaçatez de falar em dignidade dos réus. Foi quando o Ministro Luiz Fux referiu a necessidade de se atentar para a dignidade da vítima, em última instância, toda a sociedade brasileira. Desse Ministro, aliás, ficou famosa a passagem em que trouxe à reflexão a possibilidade de um filho suspeito dirigir-se ao pai. Duas seriam as possíveis reações: 1. Pai, eu não fiz esse malfeito; 2. Pai, não há provas contra mim. O debate sobre a existência de uma sofisticada quadrilha a dilapidar o patrimônio público norteou várias sessões do STF.
      Com este julgamento, apesar dos percalços e tentativas de desacreditá-lo, a Justiça voltou a merecer crédito das pessoas honestas. Os simpatizantes da absolvição dos envolvidos (isso na imprensa era visível) não adotavam ideias claras, mas uma argumentação dúbia, ambígua, criticando um aparte aqui, outro destempero ali.

                                               ( Imagem, quemevivo.blogspot.com.)
     
       Mas voltemos ao editorial de hoje da FSP. Atualiza o adágio segundo o qual é preciso dar uma batida no cravo e outra na ferradura. O ano começa com a notícia de que o governo Dilma fez manobras para amenizar o impacto negativo das contas. Isto está em todos os jornais. Ontem, o caderno "Mercado" do periódico trazia matéria de página inteira, sob o título: "Governo usa o fundo soberano para engordar superavit de 2012". O mesmo caderno hoje circula com artigo "Manobras fiscais aumentam aposta de inflação elevada". Para o cidadão comum, a coisa é vista como maquiagem. Empresas do governo (BNDES, Petrobrás, CEF) amortizam entre si os prejuízos e simultaneamente absorvem o excesso do fiasco econômico. E ainda se tem o desplante de chamar a isso de contabilidade criativa. Nenhum outro artigo tem a luminosa e mediterrânea clareza do editorial de hoje. O título é "Descrédito". A seguir, o início e o final. O acompanhamento dos números (19 bilhões a menos no  final vexatório), só com leitura integral.


      "O governo Dilma Rousseff coloca em risco um patrimônio da política econômica brasileira conquistado a duras penas ao longo de quase duas décadas. Trata-se da confiança dos agentes privados nas ações e nos compromissos assumidos pelas autoridades.
      A manobra contábil, nos últimos dias de 2012, para maquiar o fiasco na meta de poupança pública - o chamado superavit primário - é decerto o golpe mais ostensivo na credibilidade do governo. Coroa uma série de atitudes voluntariosas que puseram em segundo plano a perseguição de objetivos centrais da política econômica.
      (...)
      Tanta criatividade contábil, embutida numa teia de decretos feitos para não criar alarde, foi inútil para o objetivo original do superavit primário - economizar despesas do governo. O setor público não poupou um tostão com isso.
      A incapacidade de controlar os gastos de acordo com o pactuado na lei orçamentária já seria um fator de desgaste para a confiança no governo. Mas a tentativa de enganar o público com toscos malabarismos fiscais vai cobrar um preço ainda mais elevado."

      Editorial. Descrédito. Folha de São Paulo. São Paulo, p.A2, 05 jan.2013.   
   

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