Receita de homem
Lúcio Cardoso
Depois
deve ser alto,
sem
lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno
sem excesso para que se encontre
tons
de sol de agosto em seus cabelos.
E
nem louro demais para que, de repente
no
olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E
que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e
adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés
grandes, também, porque não,
para
que os regressos sejam breves
e
haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os
olhos falem, falem sempre, falem
de
amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas
que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é
como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E
que o riso relembre um pouco da infância,
para
que se tenha, no fervor do beijo,
uma
memória de pitanga e amora esmagadas
Ah,
o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e
escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas
não definitivamente.)
E
o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e
o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e
escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E
que ele cante, sem cantar
por
toda a sua humana contextura,
para
que também em torno dele as coisas cantem,
quando,
como o primeiro homem,
nu
ele se erguer defronte ao mar.
Canto
do Rio, 3/XII/55
CARDOSO, Lúcio. Poesia completa. Ed. crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo: Edusp, 2011.
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Receitinha boa.
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