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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Stella Maris Rezende

Livro do mês

      Os prêmios literários são manipulados e atendem a interesses pontuais, em especial os econômicos e políticos. Não é novidade para ninguém. O exemplo gritante dessas distorções tem sido o Jabuti dos últimos anos, à mercê de mudanças de regulamento, trapaças, polêmicas e atribuição disparatada de galardões. Na última edição, os quiprocós envolvendo o voto do jurado C com a consequente premiação de um estreante, o paranaense Oscar Nakasato, na categoria romance, respingaram na escolha do melhor livro de ficção do ano, uma novela juvenil, escrita por Stella Maris Rezende, A mocinha do mercado central. Parece ser uma retaliação ao que deveria ter sido o convencional resultado, não fora a estratégia do jurado, favorecendo sua preferência. A praxe tem sido o vencedor de melhor romance acumular o troféu de melhor livro de ficção. Os votantes da última hora, oriundos do comércio, não quiseram se submeter ao vencedor da categoria romance e optaram por um produto de área conexa. 



      Não é o caso de desmerecer o gênero juvenil. Simplesmente o livro escolhido como livro do ano de ficção é um produto de fatura estética mediana, atulhado de lugares comuns, desempenho linguístico raso, enredo desinteressante e insosso. A história acompanha as viagens e pretensas aventuras de uma garota pelo Brasil, do interior de Minas para Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, São João del Rei e Rio de Janeiro. Herda de uma amiga o gosto pelo significado dos nomes próprios e sai pelo mundo mudando de nome, rotulando as pessoas com verbetes etimológicos, alguns bastante inusitados e de efeito hilário, quando deveria ser o contrário. Uma novela simples, despretensiosa, arrematada tolice ficcional, feita de  situações lacrimosas e descobertas edificantes e pitorescas. Munido de recursos peculiares dos relatos de formação e de uma ligeira reminiscência, o livro de Stella Maris explora um filão romanesco que teve no Brasil cultores ilustres e capacitados, como Érico Veríssimo (Clarissa), Garcia de Paiva (Esse menino Francisco), José Mauro de Vasconcelos (Meu pé de laranja lima) e o próprio Bartolomeu Campos Queirós. Alguns ingredientes característicos do folhetim (a busca da figura paterna, por exemplo) sustentam a trama, em meio a uma enfiada de atitudes politicamente corretas e de circunstâncias banais e afetadas. Os lugares visitados compõem um mosaico superficial do Brasil, descritos com uma empolgação de reportagem turística apressada, tudo selecionado pelo critério de se alcançar um resultado redondo, que inclui a modernidade de Brasília e o passado do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. A santa aparece, fala e se move num "modo comedido e elegante" (p.29). O ator Selton Melo é personagem, por quem a mocinha se apaixona, além de apresentar o livro com estampa e pequeno texto. O primado do lírico sobre o drama, o alvoroço de diminutivos, o registro coloquial enjoativo e o excesso de coisas delicadas geram monotonia e desandam o gosto do leitor. O projeto gráfico acolhe efeitos chamativos, como vinhetas de galhos floridos no canto das páginas, coloridas e ilustradas. As pérolas de linguagem apresentam frases desse naipe: 

      " Jairo, "aquele que foi iluminado", comentou" (p.109). 
      " Ajeitou o diadema no cabelo, mas não ajeitou o diadema no cabelo" (p.110).
      "...não rira nem caçoara da sua paixão docinha..." (p.87).
      " A franja espessa e lisa era jogada para trás, com agilidade e exibidência  (p.44)"
      " Diante de uma mesa lindinha". "- Vamos conversar um mucadinho? (p.85)
      " A confeitaria era mesmo um primor".
      "- Nasceu pra sonhar, mocinha? Eu prefiro a prática.
      - O sonho também é uma boa prática (p.25)". 

      Não se trata de um livro qualquer. Foi escolhido como o principal livro de ficção do ano. Livros excessivamente elogiados - e uma premiação tradicional é um somatório deles - devem desenvolver couraça para receber críticas. Após as luzes do anúncio do prêmio, vem a travessia para a recepção crítica e avaliações. Neste caso, fica difícil escamotear a decepção e a evidência amarga de que o Jabuti está decadente, não é mais aquele de décadas atrás.

REZENDE, Stella Maris. A mocinha do mercado central. ilustrações Laurent Cardon. São Paulo: Globo, 2012.


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