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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Carlos Ávila

Livro do mês:

      Intervenções poéticas tutelares são fenômenos que ultrapassam a linha do tempo. Fundam raízes, provocam resposta, abrem janelas. Este preâmbulo é adequado ao livro Bissexto sentido,de Carlos Ávila, dado a lume na prestigiosa coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos, da editora Perspectiva. Abarca três livros, em ordem que baralha o critério cronológico, pela disposição do mais recente ao mais antigo: Ásperos (1997), Sinal de menos (1989), Aqui & agora (1981). 


                                                          (Foto do Estado de Minas)
      A poesia elaborada pelos poetas brasileiros surgidos nos anos setenta em diante mostra-se caudatária de duas tendências antagônicas: de um lado, seguidores fiéis do concretismo, numa pulsação epigônica; de outro, os praticantes de uma escrita poética discursiva, com liames no surrealismo europeu ou na lírica beat americana. A citação de nomes é complexa e demorada, correndo o risco de se revelar parcial, em função de diversificados formatos de estreia e permanência. Régis Bonvicino, Ronald Polito, Sebastião Nunes, Leminski, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, entre outros, compõem o grupo de formação neoconcreta. No extremo oposto, (nem tão oposto assim, visto que muitos de cá transitam também do lado de lá e vice-versa), alinham-se Ana Cristina César, Márcio Almeida, Osvaldo André de Mello, Yacir Anderson, Paulo Henriques Brito, Waly Salomão, Adão Ventura, Geraldo Reis, Adélia Prado, Geraldo Carneiro, Mário Alex Rosa, Antônio Carlos Sechin, Chico Alvim, Armando Freitas Filho, com acento numa subjetividade às vezes rebelde e excessiva, na sequência de contribuição efetuada por Roberto Piva, Cacaso e Hilda Hilst  desde os anos sessenta.
     Tendo inspirado no berço um poema de Carlos Drummond de Andrade, descendente de um clã de poetas inovadores (Laís Correia de Araújo e Affonso Ávila), Carlos Ávila não se intimida em inscrever gestos inventivos radicais, seja ao rasurar num poema o parentesco (sem som/sombra/sobrenome), seja ao inscrever sua indiferença "contra a chamada literatura brasileira/ uma grande piada sem graça". Artesão refinado, imprime em seu trabalho poético uma reelaboração irônica de clichês, uma interlocução com uma dezena de poetas críticos e uma apurada concentração lírica, a despeito da filiação aos parâmetros concretistas. O poema "Noite" é fundamental nessa visada, na media em que o desenlace engloba as articulações anteriores entre estrelas e janelas que se apagam para concluir: "a noite cai/ (como um sussurro)/ dura de doer". 


      A poesia concreta de Carlos Ávila, como bem percebeu José Paulo Paes, consegue "fugir às armadilhas do epigonismo", através de modos que se contrapõem a diretrizes orgânicas do "Plano piloto". A retomada da subjetividade, ainda que desprovida de confessionalismo e direcionada à construção de uma identidade poética (o percurso de eu a Orfeu), bem como traços tênues de narratividade, como se pode observar em "Um lance", "Baudelaire sob o sol", "Neighbours" e "Narcisus poeticus" apresentam eixos dessa virada.  As alusões a outros poetas (Verlaine,  Emily, Kilkerry, Torquato Neto, Rimbaud, Mallarmé, Apollinaire, Sá-Carneiro, Ronaldo Bastos) configuram a poética da citação, praticada pelos poetas mais recentes. Outro dado, este ligado à escrita marginal, nas dobras do "retorno do autor ao texto", de que fala Barthes, a propósito dos anos 80, vem a ser a ênfase no autoral, através de traços personalizados (foto, assinatura), revitalizando a moldura dos astros pop. A assinatura se dá numa caligrafia, uma grafia da cal, o que remete a Lacan, falando dos mestres japoneses: a caligrafia é o ponto onde a letra se faz litoral, mas não sabemos de que ponto ela arranca, nem o lugar em que ela se detém. 
    A intertextualidade com Rimbaud destaca a vidência como forma de penetrar no espaço do desconhecido, a ideia de poeta como ladrão de fogo: "sou o farelo do pão/ ladrão de palavras/ no vão/ do ão", no poema "Rima pobre". Resvala, com certa insistência, no sentido do verso, ameaçadora, a sensação de que a literatura sobrevive, articulada inexoravelmente à ideia de finitude - o livro é "natimorto", "O cheiro da morte" é título de um poema. Um dos pontos altos da coletânea abre-se ao conceito de partilha, à "direção múltipla de leituras":

      "voltar a cabeça, a página
      perder o texto em vida
      em dias
      voltar a cabeça a página
      ganhar em vida o texto
      direção múltipla de leituras
      invenção de espaços
      brancos
      (...) (ÁVILA, 1999, 131)

      Depois de visitarem a cidade, na companhia de Baudelaire, os poetas acercaram-se da linguagem para tentar descrevê-la e conhecer os seus limites - "ganhar em vida o texto" O poema embaralha os conceitos de escrever e viver, ao apelar para o antitético (camoniano,drummondiano) jogo de perder/ganhar, construindo um jogo de reflexos apto a fazer circular eixos fundamentais da produção poética: espaço branco, máquina (do mundo), (claro) enigma, página, a que não faltam as noções de risco bíblico, de voltar/revoltar a cabeça, recomeçando sempre o nunca terminado. 

ÁVILA, Carlos. Bissexto sentido. São Paulo: Perspectiva, 1999.

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