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terça-feira, 30 de outubro de 2012

O jurado trapalhão do prêmio Jabuti

      Foi manchete  nos cadernos culturais, gerou controvérsias, condenações e depoimentos favoráveis. Em resumo: no último dia 24, A Folha de São Paulo revelou que um dos jurados do Jabuti, denominado jurado C, da categoria romance, teria atribuído nota zero a livros de autores consagrados, que anteriormente ele mesmo avaliara com notas altas. Os livros prejudicados eram, entre outros, Mano, a noite está velha, livro póstumo de Wilson Bueno, e Infâmia, de Ana Maria Machado. A intenção teria sido impor à premiação o romance Nihonjin, do iniciante Oscar Nakasato.  Estava criado o circo: editoras, autores e críticos apresentaram opiniões contrárias, alguns condenando, considerando ter havido fraude; outros inocentando o jurando, no entendimento de que teria agido amparado pelos critérios do certame, que previam notas numa escala de zero a dez. Editores da Objetiva e da LeYa fizeram juz ao direito de espernear. A direção do Jabuti, mais uma vez arranhado, afirmou que tal não mais poderia acontecer. Ou seja, os critérios devem sofrer mudança.


      O que salta aos olhos é a estreita cumplicidade entre a imprensa e os interesses de mercado embutidos no Jabuti. Trata-se de um prêmio tradicional, subsidiado pela Câmara Brasileira do Livro, cujos parâmetros estão arraigados no fator venda. Se cabe tomar um partido, decido apoiar o jurado trapalhão: se quis impor seu voto, agiu de acordo com os critérios do concurso. Seu voto serviu para democratizar a frustração. Por que sempre são preteridos os iniciantes? O fato de veteranos assinarem um livro seria determinante de boa fatura literária? Tenho minhas dúvidas, aliás, sempre fico com um pé atrás em caso de concursos literários. Ou prefiro aceitar que muitas vezes os livros em segundo lugar é que são os grandes livros. Para tanto, basta lembrar os casos de concursos em que Eça de Queirós (com A Relíquia) e Fernando Pessoa (com Mensagem) ficaram em segundo lugar. Alguém se lembra dos livros que nesses casos ficaram em primeiro lugar?

                                           (Oscar Nakasato, em foto de  Publishnews)
      O incidente revela os bastidores do poder literário. E a literatura deveria ser o espaço balizado pela postura libertária, de anti ou contrapoder. A premiação de um estreante causou incômodo ao status e atiçou o vespeiro. Nem se trata de um estreante qualquer, mas de alguém que foi publicado após vencer um outro concurso literário, de âmbito nacional. Quem convive no dia a dia com a exacerbação de egos e a vaidade de alguns nomes consagrados, imagina o que ocorre. Após anos seguidos premiando famosos em áreas conexas (Chico Buarque, Nuno Ramos), a direção do Jabuti julga inconcebível premiar um iniciante. O jurado C (que depois se revelou ser o editor e crítico Rodrigo Gurgel) prestou um grande serviço à literatura brasileira: ao usar as brechas legais do certame, para premiar um estreante, recompensou décadas de frustração a todo iniciante que teve seus originais recusados pelas editoras. Parabéns, Oscar Nakasato! Ainda não li o seu livro, mas terei gosto em fazê-lo em breve. Se em outras ocasiões, envolvendo prêmios, me posicionei em apoio à transparência e ao mérito, não seria desta vez que me calaria.

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