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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Viagem ao Caraça

      Na semana passada, aproveitando o feriadão, que ninguém é de ferro, fui com a família para a Serra do Caraça. Era antigo o desejo de conhecer o lugar, enfim chegou a oportunidade. Desde o fim dos anos sessenta, mais precisamente 23 de maio de l968, quando houve o grande incêndio que destruiu quase por inteiro a biblioteca e parte das dependências, ouvia falar e lia a respeito do Caraça. Um pouco de história não faz mal: em 1774, o lendário  Irmão Lourenço, um aventureiro português, segundo alguns um fugitivo de seu país, por ter praticado maus feitos, construiu no local uma capela e iniciou atividades religiosas e sociais. Deixou em testamento a propriedade para a Coroa Portuguesa. Em 1819, Dom João VI a doou para a Congregação da Missão, em nome de dois padres Lazaristas, que lá fundaram o Colégio do Caraça em 1820. Numa época em que eram escassos os estabelecimentos de ensino, o colégio prosperou,  graças à rigidez de seus princípios e  à competência dos padres mestres. Dois ex-presidentes ali estudaram, Arthur Bernardes e Afonso Pena. A partir da segunda década do século vinte, passa a funcionar apenas como seminário, cujas atividades também se encerram em 1968, com o incêndio. A partir da década de 80, toda a complexa infraestrutura e as Ruínas do Caraça, restauradas, passaram a abrigar um Centro de Peregrinação, Cultura e Turismo, de 11 233 hectares, enquadrado como Reserva Particular do Patrimônio Natural, reconhecido pelo IBAMA pela portaria 32/94.


      Ali funciona hoje um grande núcleo de visitação, com sólido e diversificado interesse turístico. Os hóspedes ou visitantes têm à disposição um cenário natural belíssimo, variada fauna e flora, jardim, uma igreja neogótica, Museu, Biblioteca com obras históricas raríssimas, capelas, trilhas, lagoas, cachoeiras, grutas, picos. Fica entre as cidades de Catas Altas e Santa Bárbara, a 120 quilômetros de Belo Horizonte: o acesso é feito através de estrada asfaltada. Observei a presença de colégios, (um do Rio, outro de Ponte Nova, em ônibus modernos), alguns turistas estrangeiros, como duas famílias inglesas e um casal de Provença (França), com o qual pude exercitar meu enferrujado francês. O grande patrimônio cultural do Caraça, no entanto, exposto na Igreja, é o monumental quadro A Santa Ceia, executado em 1828 (óleo sobre tela, 240 x 440 cm), por Manoel da Costa Ataíde (1760-1830), renomado pintor mineiro, contemporâneo de Aleijadinho.


      Atração única, também, é a chegada do lobo guará ao adro da igreja, à noite. O animal aparece para comer carne, diante das pessoas que o aguardam, atentas e com certo incômodo, em volta do adro. Arisco, elegante, imponente, o lobo, pelos dourados e patas negras, um tanto assustado, também, sobe as escadas de pedra, olha de um lado ao outro, aproxima-se da bandeja e abocanha banana e nacos de carne, na frente de todos. O maior carnívoro da América do Sul, o lobo do cerrado, ao vivo e a cores, a menos de dois metros de todos ali.  Não há quem não sinta um medo  repentino e momentâneo.

                                                     (Foto de Gabriel P. Reis)

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