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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Adriana Lisboa

Livro do mês:  Azul-corvo 


      Adriana Lisboa, carioca nascida em 1970, pertence à nova geração de ficcionistas brasileiros; detém, entre outros, os prêmios José Saramago e Moinho Santista. Doutora em literatura comparada pela UERJ, tradutora, publicou os romances Os fios da memória (1999), Sinfonia em branco (2001), considerado sua revelação, pelo qual ganhou o Prêmio Saramago, Um beijo de colombina (2003) e Rakushisha (2007). Tem livros editados em Portugal, França, Estados Unidos, Itália, México, Argentina e Suécia.
      Azul-corvo dá continuidade ao exercício de desconstrução dos modelos do romance naturalista, com ênfase na temática da violência, prática usual na ficção brasileira do século XX. A trama é construída  de forma multifacetada, numa mescla de discursos, em torno de Evangelina, a garota Vanja de treze anos, que resolve, após a morte da mãe, voltar para os EUA, onde nasceu, movida pelo interesse de conhecer o pai. Acolhida por Fernando, ex-marido de sua mãe, aproxima-se de um garoto salvadorenho, Carlos. De posse de informações colhidas na internet, empreendem os três uma viagem pela América, pretexto para novos contato e descobertas insólitas. Enquanto as pessoas resgatam lembranças, que envolvem lugares e relacionamentos, Fernando, o ex-guerrilheiro Chico, traz à tona o passado recente do Brasil, ao resgatar sua participação na guerrilha do Araguaia. Entrecruzam-se, no tecido ficcional, as memórias de sujeitos em busca da própria identidade e as memórias de lutas políticas, entremeadas de nomes trocados e violência, ainda que um tanto requentadas.
                                                     (Foto do blog Dedo de moça)

      "Quando penso em Fernando hoje, nove anos passados desde aquelas minhas primeiras semanas em Lakewood, me lembro dos braços dele. Era ali que devia morar o Fernando de fato, sua alma, sua personalidade. Os braços que eram somente uma força hipotética durante as horas diárias como segurança na biblioteca pública de Denver, unhas do gato dentro das patas do gato. Os braços que eu tantas vezes vi tirando as marcas dos vidros e o pó das superfícies e o lixo do chão alheio. Os braços que um dia se crisparam com o peso de uma arma - não sei qual o peso de uma arma, não sei qual o peso que se acrescenta a uma arma ou se subtrai dela dependendo do propósito com que ela se empunha. Os braços que eu sabia terem dado a volta no corpo da minha mãe, 360 graus (o amor, arma branca, arma que desarma) e, no corpo daquela outra mulher anterior à minha mãe e a Londres e ao Novo México e ao Colorado". (LISBOA, 2010, 98)


      Em termos ficcionais, são reelaborados ingredientes típicos do discurso da imigração, questões ligadas às trocas culturais, aos signos linguísticos, costumes e miscigenação. Ao decidir levar como acompanhante no périplo em busca de suas raízes o amigo Carlos, numa viagem que representa um mergulho na cultura hispânica no território americano, Vanja lhe possibilita repensar a construção da identidade, até certo ponto desprezada pelos pais do garoto, que viviam se babando pelos costumes ianques. O relato-valise, ao qual se agregam elementos díspares, como bagatelas relacionais e lutas políticas, revela-se um elástico mosaico pós-moderno, ao qual vão se colando, como fita adesiva, variados fragmentos. Procede daí, por vezes, um andamento de contínuas voltas ao passado e uma narrativa arrastada, incorporadora, desfibrada, multinacional, turística, cultural, sem deixar de ser orgânica, detalhista, engajada, que avança sem dificuldade, segundo a metáfora do "smooth sailing, e se revela melancólica, instrutiva, elegante. A linguagem refinada, artificial, beirando a certo preciosismo estilístico, como forma de sustentar um ritmo frouxo, é um traço reconhecido pela crítica. 

      "Não se coloca em questão a competência artesanal e a densidade descritiva do trabalho de Lisboa, até de sofisticação no domínio da linguagem, mas falta espontaneidade e algum fulgor do imediato e de algo que surpreenda e possa desarmar a mão segura da estilista. Neste sentido, aquilo que aparenta sensibilidade e simplicidade feminina muitas vezes chega ao leitor como um bordado domesticado, no limite da saturação e do exagero," (SCHOLLHAMMER, 2009, 136).

      Pelo recorte peculiar, qual seja o de delegar a uma adolescente o foco narrativo, resulta um olhar menos contaminado por juízos racionais, mais livre e ingênuo para apreender o outro e a diferença. Num relato em que a temática da imigração ocorre não por motivos econômicos, que impele a saída do solo pátrio em busca de oportunidades, mas por razões afetivas. Um subsídio produtivo, para operacionalizar os conceitos de identidade, tradução cultural e entre-lugar.

LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2009.
   

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