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domingo, 30 de setembro de 2012

Autran Dourado (1926-2012)

      A bruxa anda mesmo à solta. A Indesejada das gentes fugiu do poema de Bandeira e vai ceifando vítimas. Morreu hoje no Rio de Janeiro, onde morava desde o ano de 1954, o romancista mineiro Autran Dourado. Autor de meia dúzia de romances fundamentais para a literatura brasileira, traduzido para o inglês, alemão, francês, espanhol, norueguês, integra, com o romance Ópera dos mortos, a Coleção de obras representativas, da UNESCO. Nascido em Patos (MG), passou a residir desde o primeiro mês de vida no sul de Minas, nas cidades de Monte Santo e São Sebastião do Paraíso, por conta da transferência do pai, juiz de direito. Publicou, dentre outros, os romances Sombra e exílio (1950), A barca dos homens (1961), Uma vida em segredo (1964), Ópera dos mortos (1967), O risco do bordado (1970), Os sinos da agonia (1974), Novelário de Donga Novais (1978), Lucas Procópio (1984) e Ópera dos fantoches (1994). Revela-se notável contista em Nove histórias em grupos de três (1957) e discute a teoria ficcional em Uma poética do romance: matéria de carpintaria (1976).  Os maiores prêmios: Machado de Assis (2008, ABL) e o Luís de Camões (2000, governos do Brasil e Portugal). 

                                              (Foto de Ana Carolina Fernandes/Folhapress)
      A obra de Autran Dourado, intrigante e elaborada com sofisticados recursos técnicos, tem gerado diversos estudos, no país e no exterior. Até 1996, quando Eneida Maria de Souza organizou o volume Autran Dourado, para a Coleção "Encontro com Escritores Mineiros", havia, no âmbito acadêmico, 28 dissertações e teses de doutorado nela centradas, sendo duas na França e uma na Alemanha. Em depoimento transcrito no livro referido, o autor manifesta preferência pelo breve e delicado relato da vida de Biela:
      "Um livro que me toca particularmente em toda a minha obra é quase que uma elegia. Se eu fosse poeta teria feito do tema e da história desse livro uma elegia. É o filho de quem mais gosto - Uma vida em segredo. Tenho por ele muita ternura, pois escrito em tom menor, num tom mais intimista. Eu não posso comparar Uma vida em segredo com Os sinos da agonia, que é um romance polifônico, para usar a terminologia de Bakhtin". (SOUZA, 1996, p.42-43)

      Seus romances podem ser analisados sob a perspectiva do conhecimento da história de Minas Gerais e da sábia fusão de traços populares e eruditos. A decadência da sociedade mineira é descrita através de uma memória prodigiosa, incapaz de se desvencilhar de um passado que insiste em se insinuar no presente através de detalhes desbotados e indícios de ruína. Nas palavras de Eduardo Portela: "Autran Dourado é um cronista requintado da decadência rural. De um Brasil que será cada vez mais 'um retrato na parede'. Mas um cronista que perdurará, porque redimido pela dimensão estética". (SOUZA, 1996, p. 105-106)  Um narrador astuto, o disfarce autoral, personagens atormentadas, reflexões sobre os bastidores da escrita e os recuos no tempo são elementos em geral presentes em seus relatos.

SOUZA, Eneida Maria de. Autran Dourado. Belo Horizonte: Centro de Estudos literários da UFMG; Curso de Pós-Graduação em Letras-Estudos Literários, 1996. 114 p.

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