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sábado, 22 de setembro de 2012

Monteiro Lobato racista?

      A obra de Monteiro Lobato (1882-1948) tem ocupado os debates nos cadernos culturais, após a audiência ocorrida no Supremo Tribunal Federal, para discutir a presença de racismo no livro Caçadas de Pedrinho, título constante do Programa Nacional Biblioteca na Escola. O caso arrasta-se desde 2010, com a recomendação do CNE (Conselho Nacional de Educação) de que o livro, publicado em 1933, deveria ser retirado do Programa referido, por alegação de racismo. O ministro Luiz Fux em nota alega "relevante conflito em torno de preceitos constitucionais, no caso, a liberdade de expressão e a vedação ao racismo". O MEC liberou, exigindo que constasse nos livros distribuídos uma "nota explicativa".  A medida não foi considerada suficiente para o Iara (Instituto de Advocacia Racial) do Rio de Janeiro que teria se manifestado contra, argumentando "que a obra faz referências ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas".  Dentre os fragmentos portadores de racismo cita-se a descrição de tia Anastácia como "macaca de carvão".

                                                         (Imagem de Caros Amigos)
      As obras literárias são representativas não apenas da bagagem cultural do autor, mas do contexto em que foram escritas. São depositárias do legado de contingências e contradições históricas. Não são obras de edificação moral, rol de conselhos de atuação proveitosa e solidária. Ao contrário, a presença de traços de boa conduta, de forma gratuita, desprovidos de conexão ficcional contribui para mediocrizar o alcance estético. Quando se mostram interessadas em atuar no sentido da conversão, engajadas num compromisso de elevação moral, perdem em vigor e complexidade. As obras literárias acolhem por vezes o contraditório, as perversões sexuais, a intolerância, a ideia preconcebida, as crendices. Universo construído através de palavras e signos, de existência basicamente textual, movimenta personagens que se relacionam em intrigas regidas pelos parâmetros do verossímil e não  do verdadeiro.  Como afirma Noemi Jaffe, em artigo recente na Folha de São Paulo: "A literatura - e a arte- são territórios onde cabem o erro, o preconceito, a divergência e a loucura". Por serem ficção (fingimento) e participarem de outro mundo autônomo, não se prestam a inquéritos jurídicos, relevantes e pertinentes no mundo real. Os laços com o mundo real são fluidos, tênues, consistentes apenas num sistema de referência.

      Grandes obras literárias são julgadas fora de contextualização e rotuladas aleatoriamente. O poema Os lusíadas, de Camões, ponto alto da literatura portuguesa, escrito no século XVI, é considerado um libelo imperialista, por relatar a expansão ideológica da aristocracia lusa. Nesse aspecto o autor não oculta ser um  admirador do ideário e das memórias daqueles reis que foram dilatando "a fé, o Império". O excepcional poeta e ficcionista argentino Jorge Luís Borges permanece incólume, a despeito de ter sido fartamente patrulhado como conservador. Fernando Pessoa atravessa gerações de admiradores, apesar de ter sofrido uma campanha depreciativa, em razão de articulações favoráveis à monarquia. A Bíblia exibe passagens carregadas de violência e intolerância, atenuadas quando analisadas em seu devido contexto e intencionalidade.

      Lidas hoje, num contexto em que as relações étnicas evoluíram, algumas passagens de Monteiro Lobato podem soar como racistas. O perigo é ignorar o contexto em que foram criadas, numa sociedade de estruturas sociais muito rígidas, em que a separação entre brancos e negros, ricos e pobres era muito sensível. Pedrinho vive numa família de fazendeiros, na certa descendentes (dentro do pacto do mundo ficcional possível) de antigos proprietários de escravos. Os negros em geral ainda viviam em ofícios subalternos, como colonos ou agregados de proprietários de terra ou ricos comerciantes.  A questão não é proibir sua obra, atitude que evidencia obscurantismo próprio dos tempos inquisitoriais e nazistas. Cabe reciclar os modos de leitura, renovar as expectativas, perceber alterações capazes de modificar a sociedade, sem eliminar a diversidade e as conexões vitais.

JAFFE, Noemi. Não se pode tratar alunos como meros espectadores ingênuos. Folha de São Paulo. São Paulo, Ilustrada, p.3, 11 set.2012.

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